Publicações Sobre Autismo

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Autismo e ensino de habilidades acadêmicas: adição e subtração

Revista Brasileira de Educação Especial
Rev. bras. educ. espec. vol.13 no.3 Marília Sept./Dec. 2007
RELATO DE PESQUISA
 
Autismo e ensino de habilidades acadêmicas: adição e subtração
 
Autism and teaching academic skills: addition and subtraction
 
 
Camila Graciella Santos Gomes
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Especial - Universidade Federal de São Carlos - Bolsista de mestrado da CAPES - camilagsg@uol.com.br
 
 

RESUMO
O ensino de habilidades acadêmicas para pessoas com autismo tem recebido pouca atenção de estudos, provavelmente porque os comprometimentos clássicos do transtorno relacionados à comunicação, interação social e comportamentos são vistos como prioritários no desenvolvimento de pesquisas. Porém, o desenvolvimento de tecnologias para o ensino de habilidades acadêmicas que atinjam esse público é fundamental, principalmente na realidade brasileira em que, com o advento da filosofia de inclusão escolar, a educação de pessoas com necessidades educacionais especiais, incluindo autistas, passou a ser direcionada para a escola regular. Assim, crianças com autismo estão cada vez mais expostas aos conteúdos acadêmicos nas salas de aula regulares e estratégias de ensino adequadas às suas necessidades são fundamentais para a entrada, permanência e progresso destas pessoas na escola. Assim, este trabalho descreve o ensino de habilidades de adição e subtração para uma adolescente com autismo e utilizou procedimentos adaptados com base em descrições sobre o quadro de autismo, princípios de aprendizagem da análise experimental do comportamento, técnicas de ensino e observação direta do repertório da participante. Para as tarefas acadêmicas foram utilizados estímulos visuais – gráficos e uso das mãos – que indicavam relações visualmente óbvias para explicar à participante como as operações aritméticas deveriam ser realizadas. Gradualmente, aumentou-se a complexidade das operações ensinadas, à medida que ia aumentando o número de acertos dela nas tarefas. Esses procedimentos foram realizados no decorrer de nove sessões. Os erros e acertos foram computados e serviram para representação gráfica. Os resultados demonstram a aprendizagem gradativa das habilidades ensinadas à medida que a intervenção ocorreu.
Palavras-chaves: autismo; aprendizagem; ensino de matemática; adição; subtração; educação especial.

ABSTRACT
The teaching of academic skills to individuals with autism has received little attention from research literature, probably because the classical deficits in communication, reciprocal social interaction and behaviors are seen as priorities in scientific investigations. Nevertheless, the development of technologies for teaching academic skills to this population is necessary, mainly in the context of Brazilian school inclusion. People with autism are being included with greater frequency in regular classes and, consequently, need adequate strategies to learn academic contents for their entrance, permanence and progress in the schools. Many studies describe characteristics and difficulties that people with autism have, which can influence the way they learn. These variables need to be considered when planning appropriate teaching strategies for this population. Among these variables are the ways in which these individuals respond to environmental stimuli, the way they think and their typical behaviors. This study describes strategies for teaching addition and subtraction to an adolescent with autism. These teaching procedures were elaborated based on the general characteristics of autism, principles derived from Applied Behavior Analysis, and the repertoire of the participant. The results show gradual learning of the taught skills.
Keywords: autism; teaching; mathematics; addition; subtraction; especial education.

 
 
1 INTRODUÇÃO
Segundo O'Connor e Klien (2004), o ensino de habilidades acadêmicas para pessoas com autismo tem recebido pouca atenção de estudos, provavelmente porque os comprometimentos clássicos do transtorno relacionados à comunicação, interação social e comportamentos, são vistos como prioritários no desenvolvimento de pesquisas. Porém, estes autores ressaltam que, com o aumento do número de pessoas diagnosticadas com autismo nos últimos anos1, aumentou-se também o número de pessoas com diagnóstico de Síndrome de Asperger e autismo de alto funcionamento, cujas habilidades cognitivas e de linguagem são menos comprometidas e cujas necessidades educacionais são mais amplas, englobando habilidades de leitura, escrita e matemática.
Pode-se perceber também que, com o aumento da eficácia das estratégias de ensino que possibilitam a aquisição de habilidades básicas e que suplementam as dificuldades clássicas do transtorno, crianças com autismo têm mostrado um ganho no repertório geral e, conseqüentemente, tornam-se hábeis a aprender comportamentos mais complexos como àqueles necessários aos conteúdos acadêmicos.
Neste sentido, justifica-se o desenvolvimento de tecnologias para o ensino de habilidades acadêmicas que atinjam esse público, principalmente na realidade brasileira em que, com o advento da filosofia de inclusão escolar, a educação de pessoas com necessidades educacionais especiais, incluindo autistas, passou a ser direcionada para a escola regular, evitando-se a exclusão em ambientes específicos como escolas especiais (MENDES, 2006). Assim, crianças com autismo estão cada vez mais expostas aos conteúdos acadêmicos nas salas de aula regulares e estratégias de ensino adequadas às suas necessidades são fundamentais para a entrada, permanência e progresso destas pessoas na escola.
Muitos estudos descrevem características e dificuldades de pessoas com autismo que podem influenciar na aprendizagem de habilidades acadêmicas, ressaltando aspectos fundamentais a serem considerados no planejamento de estratégias de ensino para essa população (FRITH, 1989; HAPPÉ; FRITH, 2006; LOVAAS, et al., 1971; MESIBOV, SCHOPLER, HEARSEY, 1994; PEETERS, 1998; RIVIÈRE, 1995; RONCERO, 2001, SPRANDLIN; BRADY, 1999). Entre esses aspectos estão a forma como essas pessoas respondem aos estímulos do ambiente, a maneira como pensam e os comportamentos típicos desta população.
Em relação a respostas aos estímulos do ambiente, vários pesquisadores, em orientações teóricas diversas, descreveram limitações ou alterações na maneira como pessoas com autismo respondem aos estímulos. Lovaas et al. (1971) perceberam que crianças com autismo geralmente aprendiam a responder a parte de um estímulo complexo e não mantinham a atenção no estímulo como um todo, ou seja, quando era apresentada à criança uma figura complexa, com muitos detalhes, ela mantinha a atenção em apenas um dos detalhes e não via a figura como um todo. A mesma reação também pôde ser verificada na apresentação simultânea de estímulos visuais e auditivos (LOVAAS; SCHREIBMAN, 1971 apud STROMER; MCILVANE; DUBE; MACKAY, 1993), geralmente um dos elementos do estímulo composto (estímulo visual ou estímulo auditivo) exercia controle discriminativo, o outro era aparentemente ignorado. A esse fenômeno os pesquisadores chamaram de controle restrito de estímulos e segundo Dube e MacIlvane (1999), trata-se de um problema amplo na educação de indivíduos com alterações no desenvolvimento como no caso da deficiência mental ou autismo e, apesar da questão ser muito difundida, ainda são poucas as estratégias para remediar a situação.
Nesta mesma perspectiva, porém com outro referencial teórico, os experimentos de Uta Frith e as formulações a respeito da teoria da coerência central parecem descrever o mesmo fenômeno do controle restrito de estímulos. Segundo a pesquisadora, coerência central refere-se à habilidade inata, apresentada por pessoas com desenvolvimento típico, de perceber características de algo e compreendê-lo como um todo. No caso dos autistas, estes demonstram falha na coerência e, conseqüentemente, tendência a prestar atenção em detalhes. Desta forma, torna-se difícil o estabelecimento da relação entre as partes e o todo (HAPPÉ; FRITH, 2006).
Sprandlin e Brady (1999) também descreveram dificuldades apresentadas por essa população na integração das informações e ao fazer uma análise do controle de estímulos por crianças com autismo, estes afirmaram que autistas necessitam de relações mais consistentes entre estímulos, respostas e conseqüências para que possam adquirir novos comportamentos e mantê-los ao longo do tempo. Os pesquisadores levantam a hipótese de que muitos dos sintomas do autismo se devem a este aspecto e afirmam que, como estas pessoas necessitam de reforçadores consistentes para estabelecer relações entre estímulos, apenas reforçadores sociais como elogios poderiam não ser suficiente para a aquisição e manutenção de habilidades.
Outros autores descrevem respostas atípicas de autistas frente aos estímulos do ambiente e dificuldades na integração das sensações captadas pelos órgãos dos sentidos. Entre os comportamentos relatados estão: muita ou pouca sensibilidade a estímulos sonoros, visuais, tácteis e olfativos, exemplificados por muita tolerância a estímulos dolorosos, incômodo a certos tipos de sons e exploração do ambiente de forma inadequada, lambendo objetos ou cheirando pessoas (TULIMOSCHI, 2002). Dentro deste aspecto, Ludlow, Wilkins e Heaton (2006) descrevem respostas idiossincráticas de autistas frente a cores diferentes, citando o relato de uma autista de alto funcionamento sobre como cores diferentes influenciavam no seu humor, sensação de conforto e acurácia na forma como ela podia ver as coisas. Estes autores pesquisaram o efeito da utilização de coberturas coloridas sobre textos impressos para verificar o aumento da precisão e velocidade da leitura em pessoas com autismo; concluíram que o recurso teve um efeito positivo sutil na qualidade da leitura nas crianças avaliadas.
Em relação ao pensamento, Peeters (1998) afirma que, apesar de 80% dos autistas apresentarem deficiência mental severa ou moderada, o que os define é o "estilo cognitivo diferente"; uma forma de pensar própria do transtorno. Este estilo seria caracterizado pela rigidez dos pensamentos e pouca flexibilidade no raciocínio, demonstrada pela dificuldade que autistas apresentam em criar coisas novas, fazer um raciocínio inverso, dar sentido além do literal, associar palavras ao seu significado, compreender a linguagem falada e generalizar a aprendizagem. Ressalta que a imaginação e a brincadeira simbólica são restritas ou mesmo ausentes:

O desenvolvimento da imaginação (adicionando significado na percepção) e do comportamento social no autista é completamente diferente. Se convidados a brincar, procuram atividades focalizadas na percepção pura como amontoar objetos ou colocá-los alinhados em filas.(PEETERS, 1998, p.16).

Grandin (1995), que é autista de alto funcionamento, ressalta a habilidade de autistas frente a estímulos visuais ao afirmar que essa população apresenta um "pensamento visual", ou seja, estas pessoas pensam e raciocinam com mais facilidade por meio de imagens e sistemas visuais, podendo demonstrar dificuldades em compreender estímulos auditivos e conceitos abstratos que não possuem representação visual.
Outra descrição da forma como pessoas com autismo pensam é oferecida pela teoria da mente (FRITH, 1989), que se refere às estratégias que crianças de desenvolvimento típico utilizam para inferir sobre os estados mentais2 de outras pessoas e predizer o comportamento das mesmas em função destes atributos. No caso dos autistas, estes podem não prever comportamentos humanos e não atribuir crenças ou idéias a comportamentos observados em outras pessoas, falhando em estabelecer uma teoria da mente.
Em relação aos comportamentos, pessoas com autismo apresentam tendência a manter rotinas; resistência frente a mudanças; dificuldades na compreensão da linguagem falada comprometendo o seguimento de ordens verbais e interesses restritos. Segundo Roncero (2001), o desenvolvimento desta população é caracterizado por um desajuste qualitativo, ou seja, um padrão descoordenado com dificuldades significativas em algumas áreas como interação social e comunicação, porém com habilidades em outras, como memória mecânica e destrezas espaciais. Na maioria dos casos, as habilidades destas pessoas que ressaltam em seu repertório relacionam-se principalmente a memória visual, estabelecimento de relações lógico-matemáticas e, principalmente, ao seguimento e manutenção de regras e rotinas.
AUTISMO E APRENDIZAGEM
Windholz (1995), fazendo uma revisão histórica sobre pesquisas e tratamentos voltados ao autismo, afirma que Lovaas e Smith (1989) propõem quatro princípios para apoiar a intervenção com autistas: 1) as leis da aprendizagem3 respondem adequadamente para pessoas coma autismo e podem constituir base para seu tratamento; 2) crianças com autismo apresentam muitos déficits comportamentais distintos e os comportamentos devem ser ensinados um-a-um, em pequenos passos; 3) crianças autistas aprendem, desde de que colocadas em ambientes especiais4 e 4) o fracasso de crianças autistas em ambientes normais e seu sucesso em ambientes especiais indica que seus problemas podem ser melhorados através de manipulação do ambiente.
Alguns autores afirmam que autistas respondem melhor a propostas de trabalho estruturadas que a situações livres e a estímulos visuais que a estímulos auditivos (LEWINS; DE LEON, 1995). Segundo Rivière (1995), o conceito de estrutura é de grande importância na educação destas pessoas e envolve ambientes simples, sem muitos estímulos, que facilite a percepção e compreensão.Mesibov, Schopler e Hearsey (1994) afirmam que prover estrutura visual para crianças com autismo ajuda-os a organizar-se e responder de forma mais apropriada ao ambiente: "O que é visual é concreto e portanto fácil para as crianças aprenderem e entenderem" (p.202)
O trabalho a ser relatado a seguir descreve o ensino de habilidades de adição e subtração para uma adolescente com autismo, que utilizou procedimentos adaptados com base em descrições sobre o quadro de autismo, princípios de aprendizagem de análise experimental do comportamento, técnicas de ensino e observação direta do repertório da participante.
 
2 MÉTODO
PARTICIPANTE
Participou do estudo uma menina de doze anos, com diagnóstico de autismo, de nível sócio-econômico alto, que freqüentava uma escola privada da rede regular e estava na quinta série, em uma turma composta por alunos com média de onze anos de idade. Em avaliação prévia ela obteve pontuação 35,00 no CARS5 (SCHOPLER; REICHLER; RENNER, 1988), sugerindo autismo leve/moderado.
A menina estava matriculada na escola desde as séries iniciais e, apesar de estar inserida na rotina da escola e relacionar-se diariamente com pares da idade, ela não acompanhava os conteúdos acadêmicos de sua turma. Na matemática, enquanto a escola trabalhava conteúdos de multiplicação, divisão, potenciação e raiz quadrada, a menina ainda não havia aprendido a resolver operações de adição e subtração.
Em relação às características da participante, suas maiores dificuldades relacionadas ao autismo estavam na área da comunicação. Esta apresentava fala e conseguia utilizá-la para comunicar-se por meio de palavras isoladas ou frases simples, porém, na maioria das vezes, a fala mostrava-se repetitiva e estereotipada e era comum que a menina falasse sobre o mesmo assunto ou fizesse a mesma pergunta diversas vezes. Apresentava também alteração no tom da fala, troca de pronomes e dificuldades na organização de frases. Compreendia literalmente ordens verbais e apresentava dificuldades na compreensão de ordens complexas e conceitos abstratos, necessitando de explicações mais simples e diretas. Não compreendia conceitos que necessitavam de relações entre objetos ou quantidade como "maior", "menor", "mais" ou "menos".
Apresentava comportamento socialmente aceito e organizado, com poucas estereotipias motoras que eram facilmente interrompidas quando solicitada. Mostrava interesse pelas pessoas, porém de forma passiva, sem muita iniciativa, apesar de responder adequadamente a cumprimentos, a perguntas do interlocutor e despedir-se. Tinha autonomia em relação ao auto cuidado e não fazia uso de nenhuma medicação.
Aprendeu a ler na escola, junto com os pares da idade, sem a necessidade de ensino diferenciado, e na época deste estudo, apresentava leitura fluente e escrita correta, porém, mostrava pouca compreensão daquilo que era lido e dificuldades para interpretar textos. Apesar de conseguir responder a perguntas simples oralmente, não conseguia responder de forma escrita. Demonstrava interesse pelos conteúdos da escola e passava as aulas copiando aquilo que era trabalhado nas disciplinas.
SITUAÇÕES E MATERIAIS
As sessões de ensino foram realizadas em consultório de psicologia, uma vez por semana, com duração de aproximadamente cinqüenta minutos de intervenção com a participante e dez minutos de orientação com a acompanhante doméstica que tinha a função de desenvolver com a menina, em casa, atividades pedagógicas da escola e treinos das atividades trabalhadas no consultório. Em relação aos materiais, foram utilizadas folhas em branco, lápis, borracha e caneta.
A acompanhante doméstica tinha formação em magistério de nível técnico, freqüentava a casa da participante de segunda à sexta, duas horas por dia, fazia com a menina prioritariamente os deveres da escola e no tempo que restava, treinava com ela as operações trabalhadas no consultório. As orientações a acompanhante consistiam na explicação breve do conteúdo trabalhado e da maneira como ele foi ensinado à menina, além de sugestões de operações que ela poderia treinar com a participante em casa para evitar que esquecesse o que havia aprendido. Desta forma, só eram treinadas no ambiente doméstico, com a acompanhante, operações que a menina já havia aprendido no consultório.
Procedimento
Antes do início das sessões de ensino de habilidades de adição e subtração, a participante foi avaliada por meio de tarefas de adição simples (com números de apenas um dígito), adição com números de dois dígitos, subtração simples (com números de apenas um dígito) e discriminação entre tarefas de adição e subtração. As operações foram apresentadas, uma por vez, em uma folha de papel, sendo solicitado à menina que resolvesse as tarefas. Erros ou acertos não foram reforçados e nenhuma ajuda foi oferecida à participante (Figura 1).

 

 
A partir dos dados da avaliação inicial, optou-se por dividir as habilidades a serem ensinadas em oito categorias de operações: 1) adição com números de dois ou mais dígitos; 2) adição com número a ser elevado; 3) subtração simples, com números de apenas um dígito; 4) subtração com números de dois ou mais dígitos; 5) discriminação entre tarefas de adição e subtração; 6) subtração com números menores que dez e 7) subtração com números entre onze e dezoito (maiores que dez).
Após as sessões de ensino, outra avaliação foi efetuada, semelhante à avaliação inicial, porém, as habilidades avaliadas foram: soma com número a ser elevado, subtração com números de dois ou mais dígitos, subtração com números menores que dez e subtração com números entre onze e dezoito. As operações de adição simples, subtração simples, adição com números de dois dígitos e discriminação não foram avaliadas porque os tipos de tarefas escolhidas para a avaliação final abarcavam as habilidades necessárias à resolução destas operações (Tabela 1).

 

 
Para a avaliação inicial a menina fez um total de 47 operações e na avaliação final foram no total 44 operações apresentadas em seqüência aleatória. O número total de operações das Sessões de ensino variou de acordo com a complexidade da tarefa, sendo que o número mínimo de operações efetuadas pela participante foi de 22 e o número máximo foi de 81, tendo como média 49 operações (Figura 2). Nas avaliações e nas Sessões de ensino houve variação também no número de tarefas com cada tipo de operação, aparecendo em maior número a cada Sessão, tarefas com o tipo de operação ensinada (Figura 3). As Sessões se iniciavam com a apresentação de operações trabalhadas na Sessão anterior, antes do ensino de novas operações.

 

 

 

 
SESSÃO 1 – ADIÇÃO COM NÚMEROS DE DOIS OU MAIS DÍGITOS
A adição é uma operação caracterizada pelas ações de juntar, agrupar ou reunir, ou seja, é necessário que se saiba juntar certa quantidade a uma outra quantidade para obter o resultado esperado.
A participante era capaz de fazer com precisão adições simples como: 6 + 3 = 9 e utilizava os dedos das mãos para fazer os cálculos. No caso anterior, levantava seis dedos, contava até seis, levantava três dedos, continuava a contagem - sete, oito, nove - e assim chegava ao resultado. Em operações mais complexas, com números constituídos por dois dígitos ou mais, cometia muitos erros e necessitava de aprimoramento; muitas vezes, em vez de somar os números na vertical, somava todos os números (Figura 4):

 

 
Num primeiro momento, a participante foi ensinada a somar os números que estavam em colunas, começando da direita e seguindo em direção à esquerda. Para isso utilizou-se uma linha fina entre as colunas para indicar visualmente a separação entre elas. No resultado era feito um círculo em volta dos números para indicar visualmente que estes deveriam ser considerados como um todo, evitando que a menina os considerasse de forma isolada. Gradativamente, a linha e o círculo foram esvanecidos e a complexidade das tarefas foi aumentada (Figura 5). O critério para diminuição das ajudas e aumento da complexidade das tarefas foi de cem porcento de acerto em pelo menos uma seqüência de cinco operações do mesmo tipo. A menina fez quatro seqüências de tarefas e precisou de ajudas nas duas primeiras. Cada acerto era elogiado e esse tipo de conseqüência, assim como o próprio desempenho na atividade, parecia ser suficiente para mantê-la atenta e motivada.

 

 
SESSÕES 2 E 3 - ADIÇÃO COM NÚMERO A SER ELEVADO
O próximo passo era ensinar operações de adição em que a soma dos números das colunas era superior a 10. Neste caso, apenas o segundo número da dezena é colocado abaixo dos números da coluna somada, enquanto o primeiro número da dezena é elevado à parte superior da primeira coluna seguinte, à esquerda da coluna somada, e este é somado aos números desta coluna (Figura 6):

 

 
Como o valor da soma dos números da coluna tem dois dígitos (exemplo: 10), ensinou-se à menina a fazer os seguintes passos: somar os números da coluna, escrevê-lo na operação de maneira que o primeiro dígito ficasse sobre a primeira coluna à esquerda da coluna em que os números foram somados e o segundo dígito ficasse abaixo desta coluna. Assim, ela escrevia o resultado com dois dígitos de forma fragmentada, sem esquecer de elevar o primeiro dígito e nem de colocar o segundo abaixo da coluna somada (Figura 7).

 

 
Desta forma, utilizou-se de estímulos visuais e relações visualmente óbvias para explicar à menina como a operação deveria ser feita e, gradualmente, aumentou-se a complexidade das operações ensinadas, a medida em que ia aumentando o número de acertos dela nas tarefas (Figura 8). O critério para diminuição das ajudas e aumento da complexidade das tarefas foi de cem porcento de acerto em pelo menos uma seqüência de cinco operações do mesmo tipo. A menina fez dez seqüências de cinco operações nas Sessões 2 e 3 e precisou de ajudas nas duas primeiras.

 

 
Após a aprendizagem das diversas possibilidades de operações de adição, iniciou-se o ensino da subtração. O objetivo era manter as habilidades de adição e ensinar habilidades de subtração sem que as primeiras fossem suprimidas.
SESSÃO 4 - SUBTRAÇÃO SIMPLES
A subtração é caracterizada por operações de tirar, comparar e completar, ou seja, é a ação de encontrar a diferença entre dois valores. As parcelas das operações de subtração são chamadas de minuendo, subtraendo e diferença (Figura 9).

 

 
Como foi descrito anteriormente, a participante fazia contas de adição utilizando os dedos das mãos, assim partiu-se deste ponto para o ensino da subtração, porém, invés de levantar os dedos, a menina foi ensinada a levantar a quantidade referente ao minuendo e abaixar a quantidade do subtraendo para obter o resultado (Figura 10):

 

 
As instruções verbais dadas à menina foram: "quanto você tem aqui?" (mostrava a ela o minuendo e esperava ela mostrar a quantidade de dedos), "quantos dedos você vai abaixar?" (mostrava o subtraendo e esperava ela abaixar a quantidade de dedos referente) e "quantos dedos ficaram?" (esperava a resposta oral e pedia a ela para escrevê-la na folha). A menina aprendeu rapidamente e gradativamente as orientações verbais foram retiradas para que ela pudesse fazer as operações sem ajuda. O critério para diminuição da ajuda e aumento da complexidade das tarefas foi de cem porcento de acerto em pelo menos uma seqüência de cinco operações do mesmo tipo. A menina fez quinze seqüências de cinco operções e precisou de ajudas nas duas primeiras.
SESSÃO 5 - SUBTRAÇÃO COM NÚMEROS DE DOIS OU MAIS DÍGITOS
Após a aprendizagem de operações de subtração simples, trabalhou-se com operações constituídas por números de dois ou mais dígitos e no início, utilizou-se uma linha divisória entre as colunas, como na adição, para ajudá-la a se organizar, que rapidamente foi esvanecida na medida em que o número de acertos aumentou. Não foi necessária a utilização do círculo em volta do resultado como na adição. O critério para diminuição das ajudas e aumento da complexidade das tarefas foi de cem porcento de acerto em pelo menos uma seqüência de cinco operações do mesmo tipo. A menina fez três seqüências com cinco operações cada e precisou de ajuda nas duas primeiras. Até esse ponto, todos os valores do subtraendo eram menores do que o minuendo (Figura 11).

 

 
Com o início dos treinos de subtração, as atividades de adição foram temporariamente suspensas para evitar que a menina confundisse as operações, porém, como o objetivo era manter as habilidades de adição assim como ensinar as de subtração, voltou-se com tarefas de adição paralelamente aos treinos de subtração, então, percebeu-se que a menina não identificava quais operações eram de adição ou subtração e assim tarefas de discriminação foram organizadas.
SESSÕES 6 E 7 - DISCRIMINAÇÃO
Primeiramente, o sinal da adição começou a ser apresentado em azul, o de subtração em vermelho e a seguinte regra foi treinada (Figura 12):

 

 
Pediu-se à menina que escrevesse, algumas vezes, a regra, primeiro copiando o modelo dado e, posteriormente, tendo que lembrá-la frente aos sinais de mais e de menos, escritos em azul e vermelho, respectivamente.
Uma sequência de atividades foi programada, começando com tarefa de adição, em seguida de subtração e, posteriormente, em ordem aleatória. À participante foram apresentadas as tarefas com as seguintes questões verbais: "que sinal é esse?" (resposta oral esperada: mais/menos). "O que você deve fazer?" (resposta oral esperada: levantar/abaixar). As perguntas foram gradualmente retiradas na medida em que a menina apresentava maior número de acertos. Nas Sessões 6 e 7, os sinais de mais e de menos apareceram em azul e vermelho, respectivamente, sendo que, na Sessão 6, a participante fez doze seqüências com cinco operações em cada e precisou de ajuda apenas na primeira e na Sessão 7. Foram dez seqüências com cinco operações cada sem a necessidade de ajuda em nenhuma delas. Na Sessão 8, os sinais de mais e de menos foram apresentados na mesma cor; a menina fez cinco seqüências com cinco operações em cada e precisou de ajudas apenas na primeira seqüência.
SESSÕES 8 E 9 - SUBTRAÇÃO COM NÚMEROS MENORES QUE DEZ
O próximo passo relacionava-se ao ensino de operações em que o minuendo era inferior ao subtraendo. Neste caso, tínhamos duas situações: a primeira quando era necessário subtrair de números até dez e a segunda quando o número a ser subtraído encontrava-se no intervalo entre onze e dezoito. A segunda situação era mais complexa, pois a menina utilizava os dedos das mãos para fazer os cálculos e, como esse tipo de operação exigia números superiores à quantidade de dedos das mãos, então era necessário pensar outro recurso para que ela conseguisse fazer as operações (Figura 13).

 

 
Nas operações com números até dez, ensinou-se à participante a transformar o número zero em número dez, colocando o número um embaixo da primeira coluna à esquerda da coluna com o zero e subtraindo-o junto aos números desta coluna (Figura 14). Gradativamente, aumentou-se a complexidade das tarefas na medida em que a participante ia acertando as operações. Na Sessão 8, a menina fez sete seqüências de cinco operações e precisou de ajuda em cinco delas, já na Sessão 9 ela fez seis seqüências e precisou de ajudas apenas na primeira e na terceira.

 

 
SESSÃO 10 - SUBTRAÇÃO COM NÚMEROS MAIORES QUE DEZ
Na segunda situação, a solução encontrada para que a menina fizesse os cálculos foi ensiná-la a fazer traços pequenos, correspondente à quantidade do minuendo, cortar o número de traços correspondentes ao subtraendo e obter o resultado através da quantidade de traços que restavam (Figura 15).

 

 
Nesta sessão, a menina fez três seqüências de cinco operações e não precisou de ajuda em nenhuma delas. A discriminação entre operações de subtração com números até dez e operações com números maiores do que dez ocorreu naturalmente, já que a menina, ao tentar fazer as tarefas, tinha as mãos como referência, assim, nenhum treino adicional foi necessário.
 
3 RESULTADOS
A Figura 16 mostra, em gráficos representativos de cada sessão, o número de operações efetuadas pela participante e seus respectivos números de acertos. Foram considerados os resultados em números absolutos devido à variação no número de tarefas por sessão. As barras em preto indicam o número de operações oferecido à menina e as barras em cinza indicam o número de operações que ela acertou, sendo consideradas como corretas àquelas em que a participante não precisou de dicas ou ajudas para executá-las. Pode-se observar que nem todos os tipos de operações ocorreram em todas as sessões, porém, à medida que novas operações foram sendo ensinadas, tarefas com os tipos de operações trabalhadas anteriores foram oferecidas à menina para verificar e favorecer a manutenção das habilidades aprendidas.

 

 
Na Sessão 1, em que foram ensinadas operações de adição com dois ou mais dígitos, a menina acertou todas as tarefas de adição simples e a metade das operações de adição com números de dois ou mais dígitos. Nas Sessões 2 e 3, nas quais foram trabalhadas operações de adição com número a ser elevado, a participante acertou todas as operações de adição com números de dois ou mais dígitos e acertou em torno de 65% das operações de adição com número a ser elevado na Sessão 2. Na Sessão 3, apresentou quase 100% de acerto nas operações de adição com número a ser elevado.
Na Sessão 4, operações de subtração simples foram trabalhadas e a menina apresentou 100% de acerto nas poucas operações de adição com número a ser elevado, 80% de acerto nas operações de subtração simples e nenhum acerto nas tarefas de discriminação entre operações de adição e subtração. Na Sessão 5, operações de subtração com números de dois ou mais dígitos foram ensinadas e a participante apresentou novamente 100% de acerto nas poucas operações de adição com número a ser elevado, demonstrando a manutenção desta habilidade, 50% de acerto nas operações de subtração simples e nas operações de subtração com números de dois ou mais dígitos.
Nas Sessões 6 e 7 foram treinadas operações para que a menina aprendesse a discriminar tarefas de adição e subtração (sinais em azul e vermelho). Na Sessão 6, a participante apresentou 100% de acerto e todos os tipos de operações de adição oferecida e praticamente 100% de acerto nas operações para discriminação. Na Sessão 7, apresentou novamente 100% de acerto em todos os tipos de operações de adição e nas operações de subtração simples, 50% de acerto nas operações de subtração com números de dois ou mais dígitos e 100% de acerto nas operações para discriminação.
Nas Sessões 8 e 9 foram trabalhadas operações de subtração com números menores que dez. Na Sessão 8, a participante apresentou 100% de acerto em todos os tipos de operações de adição e subtração com números de dois dígitos, 75 % de acerto na subtração simples e na discriminação (sinais em preto), além de 30% de acerto nas operações de subtração com números menores que dez. Na Sessão 9, foram em torno de 100% de acerto nas tarefas de adição com números de dois ou mais dígitos, adição com número a ser elevado, subtração com números de dois ou mais dígitos e discriminação, além de 50% nas operações de subtração com números menores que dez.
Na Sessão 10, na qual foram trabalhadas operações de subtração com números entre onze e dezoito, a menina apresentou 100% de acerto nas operações de adição com números de dois ou mais dígitos, adição com número a ser elevado, subtração com números de dois ou mais dígitos e subtração com números menores que dez, além de 85% de acerto nas operações de subtração com números entre onze e dezoito.
Na avaliação final, na qual foi pedido à menina que resolvesse operações de adição com número a ser elevado, subtração com números de dois dígitos, subtração com números menores que dez e subtração com números maiores que dez, a participante apresentou praticamente 100% de acerto em todas as tarefas (Figura 17).

 

 
Os dados mostram a aprendizagem gradativa das habilidades ensinadas à medida que o ensino ocorreu no consultório, sugerindo que esta intervenção foi a principal responsável pela aprendizagem. Em algumas situações pode-se perceber que a participante apresentou um número de acertos inferior a 100% em algumas tarefas, como no caso da Sessão 2, nas operações de adição com número a ser elevado, e acertos próximos a 100% na Sessão seguinte, como no caso da Sessão 3, com o mesmo tipo de atividade. Isso, provavelmente, se deve a dois fatores: 1) a menina começava errando as operações no início da Sessão e os acertos apareciam após algumas tentativas e se mantinham até o fim da Sessão, se estendendo para a Sessão seguinte e 2) os treinos que ocorriam em casa, com a acompanhante doméstica, ajudaram a melhorar a performance da menina. A mesma discussão também pode ser feita em relação à manutenção das habilidades adquiridas que pode ter ocorrido devido às diversas operações efetuadas em todas as Sessões de ensino, assim como aos treinos em casa.
 
4 DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
A avaliação inicial forneceu dados importantes sobre as habilidades da participante, principalmente no que se refere ao uso dos dedos das mãos para resolver operações de adição simples. Esta habilidade foi aproveitada em praticamente todos os momentos do ensino, exceto no caso da subtração com números entre 11 e 18. A baixa compreensão de ordens verbais demonstrada pela menina e as dificuldades com conceitos abstratos indicavam a necessidade de orientações simples, diretas, concretas e que fossem preferencialmente visuais e óbvias.
A organização visual das tarefas através do uso de linhas e círculos favoreceu com que a participante conseguisse separar as colunas e somar/subtrair de maneira correta, além de ver o resultado como um todo. Este recurso possibilitou que ela olhasse corretamente para os estímulos necessários à resolução das operações e, conseqüentemente, as executasse corretamente, evitando qualquer possibilidade de que ela mantivesse a atenção em detalhes, como no caso do controle restrito de estímulos, e errasse as operações. O esvanecimento gradual desses sinais visuais ajudou a participante a resolver as operações sem esses recursos com pouquíssimos erros durante o processo de aprendizagem, o que favoreceu com que ela se sentisse confiante, motivada e disposta durante as Sessões.
Relações visualmente lógicas também foram utilizadas no ensino da adição com número a ser elevado e no ensino da subtração com números até dez. O uso de regras foi de fundamental importância na discriminação entre os sinais de mais e menos, assim como entre os comportamentos a serem emitidos com as mãos nas situações de adição e subtração. O uso deste recurso foi escolhido devido à habilidade de pessoas com autismo no seguimento e manutenção de regras, principalmente quando estas são simples, claras e diretas, como foi o caso das regras utilizadas neste trabalho. Na discriminação dos sinais, além das regras, utilizaram-se também cores diferentes; recurso escolhido em função de descrições da literatura a respeito de respostas diferenciadas de autistas frente aos estímulos sensoriais. Desta forma, pensou-se que, se autistas podem responder de formas diferentes frente a cores diferentes, como no caso do estudo de Ludlow, Wilkins e Heaton (2006), talvez fosse possível direcionar este aspecto no ensino da discriminação entre os sinais de mais e de menos, assim como entre os comportamentos a serem emitidos em cada operação.
Outro aspecto importante a ser observado refere-se à aprendizagem consistente das habilidades de adição e subtração e sua manutenção ao longo das Sessões. Por trata-se de habilidades que são, de certa forma, uma contrária à outra, era esperado que a participante apresentasse muitas dificuldades quando a subtração começou a ser ensinada, devido a descrições da literatura a respeito do "pensamento rígido e pouco flexível", característico do quadro de autismo, além das próprias características da participante que indicavam esse aspecto, principalmente pelas dificuldades que ela apresentava com conceitos abstratos, tendência a manter rotinas e interesses restritos repetitivos. A aprendizagem da adição e da subtração, neste caso, sugere que, apesar da pouca flexibilidade do raciocínio, os procedimentos de ensino utilizados podem ter suplementado essas dificuldades.
O ensino ocorreu passo a passo, partindo-se de habilidades mais simples para as mais complexas, gradativamente, e de acordo com o desempenho da participante, seguindo as observações de Lovaas e Smith (1989), citados por Windholz (1995), a respeito da aprendizagem de pessoas com autismo. Os dados sugerem que as adaptações feitas e a seqüência escolhida para o ensino favoreceram a aprendizagem e a manutenção das habilidades. Assim, trata-se de uma experiência educacional efetiva, que trouxe bons resultados, garantiu a aprendizagem das habilidades ensinadas, em um tempo de ensino relativamente pequeno. Os benefícios da aquisição destes conteúdos pela participante são grandes e permitiram que ela estivesse mais próxima de acompanhar aos conteúdos de matemática ofertados pela escola.
Apesar dos resultados alcançados, o estudo mostra-se limitado em relação à generalização dos dados para outras pessoas com autismo, por apresentar apenas uma participante, além de problemas no controle de variáveis que podem ter influenciado nos resultados atingidos, como no caso das tarefas que a acompanhante doméstica fazia com a participante na casa dela. Seria importante que o estudo fosse replicado com um número maior de participantes, com um controle melhor das variáveis, além da utilização de um delineamento mais adequado, como no caso do delineamento de linha de base múltipla (ALMEIDA, 2003; TAWNEY; GAST, 1984). O uso desse tipo de delineamento entre as habilidades trabalhadas seria mais interessante, pois além de possibilitar um controle maior das variáveis, permitiria acompanhar o desempenho dos participantes ao longo de todo o procedimento de ensino, em relação às habilidades, antes que elas fossem ensinadas, durante e após o ensino.

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1 Segundo Filipek e colaboradores (1999) os dados preliminares apontavam para a prevalência de 4-5 casos de autismo em cada 10.000 pessoas, ou um autista em cada 2.000 pessoas. Com a ampliação do fenótipo clínico a prevalência estimada cresceu para 10-20 em cada 10.000 ou seja, um autista em cada 500-1.000 pessoas. Os números ainda são controversos e apesar do DSM-IV-TR (Associação Americana de Psiquiatria, 2002) considerar a estimativa de 15 casos em cada 10.000 indivíduos, outras fontes oferecem valores muito diferentes como no caso da Autism Society of America que aponta para 40 casos em cada 10.000 pessoas, ou um autista em cada 250 indivíduos (Gargiulo, 2006).
2 crenças, desejos, conhecimentos e pensamentos.
3 Com base na Análise Experimental do Comportamento
4 "ambientes especiais" é entendido aqui como espaços que favorecem a aprendizagem e não necessariamente escola ou classe especial.
5 Childhood Autism Rating Scale
 
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Autismo infantil - Revista Brasileira de Psiquiatria

Revista Brasileira de Psiquiatria

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.22  s.2 São Paulo Dec. 2000

 

Autismo infantil

 

Francisco B Assumpção Jra e Ana Cristina M Pimentelb

aServiço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (SEPIA-IPq-HCFMUSP). bFundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG)


 

 

Introdução

Em 1942, Kanner descreveu sob o nome "distúrbios autísticos do contacto afetivo" um quadro caracterizado por autismo extremo, obsessividade, estereotipias e ecolalia.1 Esse conjunto de sinais foi por ele visualizado como uma doença específica relacionada a fenômenos da linha esquizofrênica.

Em trabalho de 1956, Kanner continua descrevendo o quadro como uma "psicose", referindo que todos os exames clínicos e laboratoriais foram incapazes de fornecer dados consistentes no que se relacionava à sua etiologia, diferenciando-o dos quadros deficitários sensoriais, como a afasia congênita, e dos quadros ligados às oligofrenias, novamente considerando-o uma verdadeira psicose.2

As primeiras alterações dessa concepção surgem a partir de Ritvo (1976), que relaciona o autismo a um déficit cognitivo, considerando-o não uma psicose e sim um distúrbio do desenvolvimento.3 Dessa maneira, a relação autismo-deficiência mental passa a ser cada vez mais considerada, levando-nos a uma situação díspar entre as classificações francesa, americana e a da Organização Mundial da Saúde. Assim, se as duas últimas (APA, 1995; WHO, 1993)4,5 enquadram o autismo dentro da categoria "distúrbios abrangentes de desenvolvimento", enfatizando a relação autismo-cognição, de acordo com os trabalhos de Baron-Cohen (1988, 1991),6,7 em oposição flagrante à CID-9; a primeira (Misés, 1990)8 remete-nos ao conceito de "defeito de organização ou desorganização da personalidade",9 caracterizando o conceito de "psicose"em sua expressão tradicional.

Outros autores, como Burack (1992),10 reforçam a idéia do déficit cognitivo, frisando que o autismo tem sido, nos últimos anos, enfocado sob uma ótica desenvolvimentista, sendo relacionado a deficiência mental, uma vez que cerca de 70-86% dos autistas são deficientes mentais.

Entretanto, pela penetração e abrangência dos conceitos, somos obrigados a nos remeter ao autismo a partir de sua constelação comportamental para que possa ser explorado minuciosamente e para que conexões causais possam ser estabelecidas dentro das possibilidades atuais.

Cabe lembrar que mesmo a escola francesa, com sua tradição psicodinâmica, prefere hoje ver o autismo vinculado à questão cognitiva.11 Lebovici (1991),12 com toda a sua tradição psicanalítica, é textual quando diz que "para os clínicos, é uma síndrome relativamente precisa. A referência histórica a Kanner faz da síndrome autística uma maneira mais ou menos específica de estar no mundo e aí formar relações atípicas", caracterizando a ambigüidade e a diferença das duas abordagens e mesmo da avaliação diversa que permite enquadrarmos crianças diferentes em um mesmo quadro nosográfico, consistindo em "emprestar ao conceito de psicose um caráter vago". No mesmo livro, Leboyer13 é textual quando diz que "a confrontação das observações clínicas e dos dados obtidos através da análise dos processos cognitivos e emocionais permite considerar a descrição de um modelo cognitivo anormal sustentando a patologia dos autistas". Assim sendo, são difíceis, na atualidade, autores, por mais diversas que sejam suas concepções, que não considerem o autismo dentro de uma abordagem cognitiva.

Tais fatos são exaustivamente citados por Gillberg (1990)14 quando fala que "é altamente improvável que existam casos de autismo não orgânico", dizendo que "o autismo é uma disfunção orgânica ¾ e não um problema dos pais - isso não é matéria para discussão. O novo modo de ver o autismo é biológico".

Considerando-se não a visão do autismo como "um dos maiores mistérios e desafios da psiquiatria infantil contemporânea", conforme se dizia em meados dos anos 60, mas sim uma síndrome comportamental definida, com etiologias orgânicas também definidas, é que foi estruturado o presente trabalho, visando apresentar as características sintomatológicas, as etiologias e o diagnóstico diferencial, bem como os aspectos terapêuticos desses transtornos.

 

Epidemiologia

Sua epidemiologia corresponde a aproximadamente 1 a 5 casos em cada 10.000 crianças, numa proporção de 2 a 3 homens para 1 mulher.15 Observa-se assim uma predominância do sexo masculino, conforme citado por Frith (1989)16 ou pelo próprio DSM IV,4 embora quando analisamos as etiologias prováveis, não encontremos grande número de patologias vinculadas especificamente ao cromossoma X, o que justificaria essa diversidade. Refere-se ainda que quando diferentes faixas de QI são examinadas, tem-se um predomínio ainda maior de indivíduos do sexo masculino, chegando-se a razões de 15:1, contrariamente a quando são avaliadas populações com QI superior a 50.

A idade usual de atendimento, caracterizando de forma clara a dificuldade no diagnóstico precoce, confirma o descrito por Baron-Cohen (1992):17 que a idade média para a detecção do quadro é ao redor dos 3 anos, embora o autor sugira que o diagnóstico já possa ser bem estabelecido ao redor dos 18 meses de idade. Estudos realizados com grandes amostras de portadores das chamadas psicoses infantis referem uma distribuição bimodal, com um grupo de crianças apresentando graves problemas já nos primeiros anos de vida, enquanto o outro apresenta essas dificuldades somente após um período de desenvolvimento aparentemente normal.18

 

Desenvolvimento cognitivo

Considerando-se o desenvolvimento cognitivo, mesmo levando-se em conta as dificuldades de avaliação (em que pese o sugerido pela literatura internacional),19 observa-se pequeno número de portadores de inteligência normal.

Tal fato é categoricamente enfatizado, considerando-se real a ligação entre autismo e deficiência mental, estabelecendo-se a noção de um "continuum autístico" em função exatamente da variação de inteligência, com características sintomatológicas decorrentes desse perfil de desempenho.

Isso remete-nos novamente à questão das atuais teorias cognitivas para se pensar o autismo de acordo com os trabalhos de Frith (1988,1989)20,16 e Baron-Cohen (1988, 1990,1991),6,21,7 questionando-se assim o conceito primitivo de Kanner e a própria noção de psicose.

Aliás, é Baron-Cohen, em trabalho de 1988,6 que refere que "uma das teorias propostas para o autismo é afetiva", considerando, entretanto, que "isso não pode ser confundido com a noção de autismo ligada a resposta a trauma emocional". Entretanto, frisa que a teoria da metarepresentação é uma teoria cognitiva que considera como fundamental a incapacidade do autista em compreender os estados mentais do outro. Assim sendo, os déficits pragmáticos de relacionamento social e de linguagem seriam dela decorrentes. Considera assim que: o autismo é causado por um déficit cognitivo central; o déficit é a capacidade de metarepresentação; e essa capacidade de metarepresentação é necessária nos padrões simbólicos e pragmáticos.

Dessa maneira, pensar o autismo dentro de uma visão cognitiva é uma possibilidade capaz de permitir sua compreensão dentro de um modelo teórico . Por outro lado, pensá-lo dentro de uma teoria afetiva na qual a incapacidade de interagir com o ambiente é inata, é fundamentalmente diferente das teorias psicodinâmicas explicativas dos mecanismos autísticos, uma vez que somos, diante das evidências apresentadas por diversos autores, levados a considerar a frase de Frith (1988),20 que refere que "não há evidências de fatores psicogênicos no autismo infantil".

Outros estudos22-24 também enfatizam a questão cognitiva, embora procurando funções mais especificamente comprometidas como sendo as responsáveis pela constelação sintomatológica.

 

Etiologia

A questão da etiologia é enquadrada ao DSM IV4 no eixo III, correspondente a "distúrbios e condições físicas" e mostra as dificuldades de quaisquer estudos a ela relativos, considerando-se que, mesmo com acurada pesquisa diagnóstica, a inespecificidade dos dados obtidos é marcante, embora a associação com fatores biológicos seja indiscutível.25

Essa questão diagnóstica torna-se ainda mais complexa na medida em que consideramos as chamadas "síndromes de Asperger" inseridas dentro do "continuum autístico". Em trabalho anterior dos autores do presente trabalho,26 vários quadros são descritos, privilegiando-se sempre as etiologias médicas, de acordo com as propostas mais recentes da literatura médica.

Observa-se também que, enquanto grupo, pessoas autistas apresentam altos níveis periféricos de serotonina em aproximadamente um terço dos casos. São observadas também maior freqüência de alterações eletroencefalográficas com quadros convulsivos associados. Da mesma maneira, podem se observar evidências sugestivas da importância dos fatores genéticos, embora pense-se na multifatoriedade da etiologia do quadro.15

 

Diagnóstico diferencial

O diagnóstico diferencial dos quadros autísticos inclui outros distúrbios invasivos do desenvolvimento, como a síndrome de Asperger, a síndrome de Rett, transtornos desintegrativos e os quadros não especificados. Esse diagnóstico diferencial é uma das grandes dificuldades do clínico. Os quadros de síndrome de Asperger são reconhecidos antes dos 24 meses, apresentando também maior ocorrência no sexo masculino, inteligência próxima da normalidade, déficit na sociabilidade, interesses específicos e circunscritos com história familiar de problemas similares e baixa associação com quadros convulsivos.

Por outro lado, os quadros de síndrome de Rett ocorrem preferencialmente no sexo feminino, sendo reconhecidos entre 5 e 30 meses e apresentando marcado déficit no desenvolvimento, com desaceleração do crescimento craniano, retardo intelectual marcado e forte associação com quadros convulsivos.

Os transtornos desintegrativos são observados antes dos 24 meses, com predomínio no sexo masculino, padrões de sociabilidade e comunicação pobres, freqüência de síndrome convulsiva associada e prognóstico pobre.

Os transtornos abrangentes não especificados tem idade de início variável, predomínio no sexo masculino, comprometimento variável na área da sociabilidade, bom padrão comunicacional e pequeno comprometimento cognitivo.

Tratamento

O tratamento é complexo, centrando-se em uma abordagem medicamentosa destinada a redução de sintomas-alvo, representados principalmente por agitação, agressividade e irritabilidade, que impedem o encaminhamento dos pacientes a programas de estimulação e educacionais .Considera-se assim o uso de neurolépticos como vinculado, eminentemente, a problemas comportamentais.

Cabe lembrar entretanto que, exatamente por se tratarem de pacientes crônicos, essa visão terapêutica se estenderá por longos períodos, exigindo dos profissionais envolvidos monitoração constante, para que tenham uma dimensão exata do problema.

Sob o ponto de vista psicofarmacoterápico, são utilizados os neurolépticos, a combinação vitamina B6-magnésio, fenfluramina, carbamazepina, ácido valpróico e lítio, visando-se sempre a remissão dos sintomas-alvo.27

Entretanto, em momento nenhum, os autores do presente trabalho consideram a psicofarmacoterapia como opção exclusiva de tratamento pois, ao acreditar que ela reduz os sintomas-alvo, pensam que facilite uma abordagem de cunho pedagógico, de acordo com o proposto nos últimos anos.

 

Conclusões

O autismo infantil corresponde a um quadro de extrema complexidade que exige que abordagens multidisciplinares sejam efetivadas visando-se não somente a questão educacional e da socialização, mas principalmente a questão médica e a tentativa de estabelecer etiologias e quadros clínicos bem definidos, passíveis de prognósticos precisos e abordagens terapêuticas eficazes. Com a maior acurácia das pesquisas clínicas, grande número de subsíndromes ligadas ao complexo "autismo"devem ser identificadas nos próximos anos, de forma que os conhecimentos sobre a área aumentem de modo significativo em um futuro próximo.

Concomitantemente, o desenvolvimento de vias de pesquisa biológica e cognitivas deve trazer futuras implicações não somente na questão diagnóstica mas, principalmente, na questão terapêutica da síndrome.

A descrição de casos e o estudo das populações afetadas contribui, de forma efetiva, para que pouco a pouco o autismo possa ser melhor compreendido e analisado.

Somente a partir de uma visão médica, embasada em modelos científicos claros, é que poderemos contribuir para o estudo da questão, ao mesmo tempo em que nos dispomos a pensar realisticamente o problema dessa população afetada.

 

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Comportamentos indicativos de apego em crianças com autismo

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Psicologia: Reflexão e Crítica
Psicol. Reflex. Crit. vol.21 no.1 Porto Alegre  2008
 
Comportamentos indicativos de apego em crianças com autismo
 
Attachment behaviors in children with autism
 
 
Cláudia Sanini; Gabriela Damasceno Ferreira; Thiago Spillari Souza; Cleonice Alves Bosa
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil
 
 

RESUMO
Este estudou investigou evidências de comportamentos de apego em crianças com autismo. Participaram 10 meninos com autismo, 10 com síndrome de Down e 10 com desenvolvimento típico, equiparados pela idade, cuja média foi de, aproximadamente, 4 anos. Uma sessão de observação de brincadeira livre, com cinco episódios, foi utilizada para avaliar os comportamentos interativos da criança com a mãe e com uma pessoa não-familiar (o estranho). Não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos, quanto à maioria dos comportamentos de apego. Contudo, o grupo com autismo apresentou uma freqüência maior de comportamento de esquiva, do que os outros grupos, apenas no 1º episódio. As comparações intragrupos mostraram que as crianças com autismo interagiram mais com a mãe, do que com o estranho. Esses resultados demonstram a ocorrência de apego entre crianças com autismo e suas mães e as vantagens de se usar análises que considerem as peculiaridades desses comportamentos.
Palavras-chave: Autismo; apego; interação mãe-criança.

ABSTRACT
This study investigated the attachment behaviors in children with autism. Ten boys with autism, 10 boys with Down syndrome and 10 boys with typical development who were around 4 years old, participated in the study. A free-play session, which consisted of five episodes, was used to observe the interactive behaviors between the child and the mother, and also an unfamiliar person (the stranger). No significant differences were found among the three groups concerning most of the attachment behaviors. However, the children with autism presented a higher frequency of avoidant behavior, only in the first episode. The comparison of differences inside the group showed that children with autism interacted more with their mothers than with the stranger. These results show the attachment behavior among autistic children with their mothers and the advantages of using a coding system that takes into account the particularities of this behavior.
Keywords: Autism; attachment; mother-children interaction.

 
 
O autismo caracteriza-se por uma síndrome comportamental que compromete o desenvolvimento infantil e apresenta múltiplas etiologias (Gillberg, 1990; Klin & Mercadante, 2006; Rutter, 1996). Os sintomas principais evidenciam-se através de uma dificuldade para relacionar-se com pessoas e situações, de um atraso na aquisição da fala e no uso não-comunicativo da mesma, e de uma insistência obsessiva na manutenção da rotina, limitando as atividades espontâneas (Bosa, 2002b; Klin, 2006), além de se evidenciarem nos primeiros 36 meses de vida (American Psychiatric Association [APA], 2000/2002; Organização Mundial de Saúde [OMS], 1998).
Quando Kanner (1943) realizou as primeiras observações clínicas sobre crianças com autismo, ele relatou uma ausência de comportamentos que sinalizassem apego, isto é, comportamentos que caracterizam a propensão do ser humano para buscar e manter aproximação com um cuidador em situações de tensão e exploração. Em contrapartida, a sensibilidade materna ao responder a estes sinais (base segura), fornece os pilares para o desenvolvimento social infantil (Bowlby 1969/2002). Bowlby propôs fases para o desenvolvimento do apego que vão desde a orientação e sinais com discriminação limitada da figura de apego até a formação de uma parceria, caracterizada por relações de reciprocidade.
Mesmo não tendo explicitamente investigado o apego no autismo, Kanner notou que essas crianças pareciam não diferenciar seus pais de outras pessoas. Tais observações foram confirmadas posteriormente por descrições clínicas, relatos parentais e estudos de caso que descreveram as crianças com autismo como apresentando uma ausência de comportamento de apego e uma relativa falha em ligar-se a uma pessoa específica (Rutter, 1996).
Contudo, os resultados das pesquisas que investigaram especificamente o apego no autismo não confirmaram essas descrições iniciais. Pelo contrário, alguns estudos demonstraram que, apesar dos déficits em quase todos os aspectos do desenvolvimento socioemocional, essas crianças realmente apresentavam indicadores de apego seletivo, que poderia ser marcado pela segurança. Dessa forma, tais resultados possibilitaram aos pesquisadores do assunto contestar a crença inicial de que essas crianças não desenvolviam apego diferencial aos seus cuidadores (Shapiro, Sherman, Calamari & Koch, 1987; Sigman & Mundy, 1989; Sigman & Ungerer, 1984).
Uma das primeiras pesquisas que investigou o apego em crianças com autismo foi desenvolvida por Sigman e Ungerer (1984), que demonstraram a presença de apego dessas crianças às suas mães, dirigindo mais comportamentos sociais e contato afetivo a estas do que à pessoa estranha que participou do procedimento de observação. Esses resultados inspiraram outras pesquisas, utilizando grupos comparativos, em especial crianças com desenvolvimento típico e síndrome de Down (por sua baixa associação com autismo; Rutter, 1996). Estes estudos demonstraram a semelhança entre os grupos quanto a capacidade para diferenciar a mãe ou o cuidador de um estranho e a ocorrência de marcadores de segurança no apego (Bakermans-Kranenburg, Buitelaar, van Ijzendoorn & van Engeland, 2000; Capps, Sigman & Mundy, 1994; Dissanayake & Crossley, 1996; Rogers, Ozonoff & Maslin-Cole, 1991; Shapiro et al., 1987; Sigman & Mundy, 1989; Sigman & Ungerer, 1984); ainda que sua freqüência tenha distinguido os grupos, com o grupo com síndrome de Down assemelhando-se ao com desenvolvimento típico.
Na grande maioria dessas pesquisas, o procedimento utilizado para investigar e classificar o apego, em grupos com desenvolvimento atípico, tem sido uma modificação no sistema original proposto por Ainsworth, Blehar, Waters e Wall (1978), caracterizada, na maioria dos estudos, pela retirada do episódio em que a criança permanece sozinha na sala (Capps et al., 1994; Rogers, Ozonoff & Maslin-Cole, 1991, 1993; Shapiro et al., 1987; Sigman & Ungerer, 1984); pela omissão do episódio de aproximação do estranho (Sigman & Mundy, 1989); além do uso de somente um episódio de separação e reencontro com o cuidador e com o estranho (Rogers et al., 1993; Shapiro et al.). Os resultados dos estudos confirmam maior ocorrência de comportamentos de apego do que anteriormente reportados, ainda que em menor freqüência do que os controles (Rogers et al., 1991, 1993).
Para o registro da intensidade de cada comportamento interativo estes estudos utilizaram uma escala de sete pontos (Ainsworth et al., 1978) onde, conforme os autores desta escala, (1) é caracterizado pela ausência de esforço por parte da criança para obter contato físico, proximidade ou interação a distância (a criança não toma a iniciativa em se aproximar do adulto) e (7) envolve esforço e iniciativa muito ativos e persistentes, por parte da criança, para obter contato físico, proximidade ou interação a distância (ex: estender os braços para ser pega no colo, mostrar/dar objetos para o cuidador, persistentemente, etc.). Sendo assim, quanto maior o escore alcançado maior a busca ativa por contato.
Contudo, na escala de Ainsworth et al. (1978) os limites superiores do instrumento (isto é, o escore 7) enfatizam os esforços ativos e persistentes da criança (busca/iniciativa espontânea de contato e interação com o cuidador para adquirir e/ou manter contato físico com o adulto e interagir a distância). Entretanto, é justamente a falta de iniciativa, espontaneidade e reciprocidade que constitui o grande marcador do autismo. Deste modo, seria injusto reduzir a questão do apego a comportamentos que compõem os critérios diagnósticos porque isto exacerba as diferenças entre os grupos. A literatura é farta em evidências sobre a menor ocorrência de atenção compartilhada no autismo (ver Bosa & Callias, 2000, para uma revisão sobre o assunto), um conceito que se refere à habilidade em compartilhar experiências em relação a objetos e eventos, de forma espontânea e recíproca e que também está implicada na definição de interação a distância na escala de apego. Apego e atenção compartilhada são, portanto, conceitos interdependentes.
Sendo assim, uma alternativa para se conduzir estudos comparativos sobre apego, entre crianças com autismo e controles, seria abolir a ênfase no comportamento ativo, enquanto medida de intensidade do comportamento. Isso significa, por exemplo, mensurar o comportamento de apego com base em sua freqüência, levando-se em conta tanto as iniciativas da criança quanto as respostas ao adulto, bem como as peculiaridades do comportamento autista (ex: interagir com o adulto através de ecolalia ou estereotipias). Isso poderia tornar os grupos (pelo menos os clínicos) mais equivalentes. Além disto, poucos estudos têm se preocupado em investigar a influência do contexto interativo (Ex.: os episódios da Situação Estranha) na qualidade de expressão dos comportamentos de apego.
Esse estudo buscou contribuir para a elucidação desta questão ao investigar os indicadores de apego em crianças com autismo, a partir de um sistema de codificação de comportamentos de apego que levasse em conta as peculiaridades do comportamento autista. Desta forma, esperava-se minimizar as diferenças entre os grupos, particularmente entre os grupos clínicos (síndrome de Down e autismo).
 
Método
Participantes
Participaram desse estudo 10 meninos com diagnóstico de autismo (AU), segundo os critérios do CID-10 (OMS, 1998) e DSM-IV-TR (APA, 2000/2002), com idades entre 3 e 8 anos (m=4,96; DP=4,12); 10 meninos com síndrome de Down (SD), com idades entre 4 e 8 anos (m=6,82; DP=3,62); 10 meninos com desenvolvimento típico (DT), com idades entre 1 e 3 anos (m=2,62; DP=1,64). Todas as crianças eram do sexo masculino, uma vez que a incidência do autismo é quatro a cinco vezes superior nos meninos (APA, 2000/2002).
As crianças com AU e SD tinham o dobro da idade cronológica das crianças com DT como uma tentativa (limitada) de equiparar os grupos quanto à linguagem, já que, por definição, tanto o autismo quanto a síndrome de Down envolvem atrasos significativos na linguagem. Não foram realizadas medidas de QI ou de idade mental porque, na época do estudo, não havia instrumentos brasileiros validados para esta população, na faixa etária do estudo. Por outro lado, não teria sentido investigar comportamentos de apego em crianças com desenvolvimento típico, com idade superior a 3 anos, visto que o pico desses comportamentos ocorre nesta faixa etária.
As crianças com autismo preencheram os critérios dos sistemas diagnósticos, nos três domínios: comprometimento social, da linguagem e comportamento e interesses restritos e repetitivos. Além disso, todas as crianças participantes não apresentavam problemas sensoriais (deficiência auditiva ou visual), conforme registros clínicos verificados nas escolas, ou deficiência física; apresentavam boas condições gerais de saúde e residiam com a mãe biológica. Os grupos de crianças com autismo e com síndrome de Down foram recrutados em escolas especiais e em associações de pais e o grupo com desenvolvimento típico foi selecionado em escolas de educação infantil, todos de Porto Alegre.
Os três grupos (AU; SD; DT) foram equiparados em relação ao sexo e os dois grupos clínicos (AU e SD) em relação ao nível de linguagem verbal compreensiva e expressiva. O nível de linguagem foi avaliado através de um checklist administrado às mães, especialmente desenvolvido para este estudo, que analisou a freqüência de palavras que as crianças compreendiam e utilizavam no cotidiano. Esta medida foi utilizada porque existe uma relação entre linguagem e comportamentos interativos (Klin, 2006). Os resultados mostraram uma equiparação quanto à linguagem nos grupos clínicos, sendo que em relação aos grupos com AU e DT, foram encontradas diferenças estatisticamente significantes em apenas 30% das categorias.
Instrumentos
O projeto foi encaminhado para o Comitê de Ética em Pesquisa, sendo aprovado por estar adequado ética e metodologicamente e de acordo com a resolução 196/96 e complementares do Conselho Nacional de Saúde. Os instrumentos incluíram o preenchimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; a Entrevista de Dados Demográficos da Família, de Desenvolvimento e Saúde da Criança (adaptada de Bosa, 1998) para caracterização da amostra. Também foi realizada uma sessão de observação, de brincadeira livre, que envolveu a mãe, a criança e uma pessoa estranha.
Procedimentos
Por ocasião das visitas às escolas especiais e de educação infantil foram explicados os objetivos e os procedimentos do estudo. Posteriormente, agendou-se o primeiro encontro com as famílias, no qual preencheu-se o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e realizou-se a primeira parte da Entrevista. Um segundo encontro foi agendado, com um intervalo de, no máximo, 15 dias, para finalizar a Entrevista e para a entrega do Inventário de Palavras às mães para preenchimento em casa e devolução no dia da sessão de observação.
A sessão de observação de uma brincadeira livre, que envolveu a criança, a mãe e uma pessoa estranha, foi utilizada para o exame dos comportamentos interativos, e constou de uma seqüência de cinco episódios, baseados na Situação Estranha (Ainsworth et al., 1978) e modificados de acordo com a literatura em autismo (Capps et al., 1994; Rogers et al., 1991, 1993; Shapiro et al., 1987; Sigman & Mundy, 1989; Sigman & Ungerer, 1984). A seqüência dos episódios caracterizou-se pela seguinte forma: No 1º episódio, com duração de 10 minutos, estavam na sala a mãe e a criança, envolvidas em uma brincadeira livre. No 2º episódio, ocorria a entrada de uma pessoa estranha na sala para interagir com a mãe e a criança, por um período de 5 minutos. No 3º episódio, a mãe saía da sala, assinalando o momento de sua partida, deixando a criança com a estranha durante 4 minutos. Se a criança demonstrasse muita aflição a mãe poderia retornar imediatamente à sala. No 4º episódio, a mãe retornava à sala e permanecia com a criança e a estranha durante 3 minutos. No 5º e último episódio, com duração de 4 minutos, a estranha saía da sala, permanecendo apenas a mãe e a criança. A mãe foi previamente instruída a agir livremente com a criança, da forma como estava acostumada a fazer em casa, até o momento em que a luz piscasse, quando, então, deveria sair da sala. Após 3 minutos, retornaria à sala e permaneceria até o final da sessão.
Esses cinco episódios envolveram quatro contextos interativos: Busca de Contato e Proximidade e Manutenção do Contato; Interação a Distância; Resistência e Esquiva, baseados no modelo de Ainsworth et al. (1978). O comportamento de Busca de Contato e Proximidade é definido pela iniciativa/resposta da criança para buscar contato físico ou proximidade com uma pessoa e pelo quão eficaz ela é em fazê-lo por conta própria. O comportamento de Manutenção do Contato refere-se aos esforços da criança para manter contato com o adulto. Interação a Distância é definido como o comportamento social positivo – sorriso, vocalização, intenção de olhar, exibição de brinquedo e brincar – que indica o interesse da criança pelo adulto, mesmo não estando muito próxima dele. Resistência caracteriza-se pela intensidade e duração do comportamento resistente provocado pela tentativa do adulto de iniciar contato com a criança, sendo a raiva um elemento importante. Comportamento de Esquiva é definido pela intensidade e duração da esquiva da criança à proximidade e à interação do adulto mesmo à distância. Distingue-se do comportamento de resistência por refletir mais apreensão que raiva.
Como os comportamentos das crianças com autismo caracterizam-se muito mais por respostas às solicitações do que pela iniciativa, os comportamentos de Busca de Contato e Proximidade e Manutenção do Contato foram reunidos em uma única categoria porque, além de ocorrerem com pouca freqüência, foram analisados somente no 2º Episódio e em relação à mãe. As sessões foram filmadas e posteriormente descritas para a análise dos comportamentos.
Registro e Análise dos Dados
O registro dos comportamentos foi realizado com base na descrição qualitativa da interação mãe-criança e criança-estranha, ao invés de escala. Isso foi feito durante 3 minutos de cada episódio, sendo que, no 1º episódio, desconsiderou-se os primeiros cinco minutos de filmagem, por questões de ambientação da díade. Dois bolsistas de iniciação científica, cegos aos objetivos do estudo e ao diagnóstico dos grupos foram treinados, de forma independente, para realizar a codificação das categorias de apego, com base na descrição dos comportamentos. Os aspectos qualitativos da análise, incluindo especificamente as reações de separação e reunião, não serão apresentados no presente artigo.
Para a análise estatística dos comportamentos interativos, foram examinados somente os comportamentos do 1º, do 2º, do 3º e do 5º episódio. No 2º episódio, foram analisados somente os comportamentos de Busca de Contato e Proximidade e Manutenção do Contato. Os demais comportamentos (Interação a Distância; Resistência; Esquiva) não foram analisados no 2º e no 4º episódio porque, nesse estudo, esses episódios serviram apenas para familiarizar as crianças com as mudanças que aconteceriam no 3º (saída da mãe da sala) e no 5º (retorno da mãe à sala) episódio.
 
Resultados
Caracterização dos Participantes
Os dados concernentes à caracterização dos participantes, nos três grupos, foram submetidos à análise estatística descritiva, para as variáveis: idade cronológica das crianças e das mães; e, através do teste Qui-quadrado para as variáveis: escolaridade materna, estado civil materno, profissão materna e jornada de trabalho materna.
No que diz respeito à idade materna observou-se que as mães do grupo com SD eram mais velhas do que as mães dos participantes dos outros dois grupos, AU e DT. Os dados referentes à escolaridade materna variaram de um grupo para outro. Observaram-se diferenças estatisticamente significantes em relação a essa variável, (c2=10,17; gl=2; p=0,03), especialmente no que se refere ao ensino fundamental e superior, ou seja, as mães dos grupos clínicos, AU e SD, possuíam menos escolaridade superior do que as mães do grupo com DT. Quanto ao estado civil das mães, não houve diferenças estatisticamente significantes quanto ao percentual de casadas ou que vivem em união estável nos três grupos (c2=5,92; gl=6; p=0,43).
Comportamentos de Apego: Comparação entre os Grupos
De acordo com o teste ANOVA, não foram encontradas diferenças estatisticamente significantes nas médias das freqüências dos comportamentos dos três grupos, na maioria dos episódios (Tabela 1). A única exceção ocorreu no 1º episódio cuja análise mostrou diferença significante somente para o comportamento de Esquiva (F=4,94; p<0,01), o qual foi mais freqüente no grupo com AU (m=3,70; DP=2,00), do que nos outros dois grupos (SD e DT; m=2,00; DP=1,76 e m=1,50; DP=0,97, respectivamente).
 
 
Comparação entre os Episódios no Grupo com Autismo
Na comparação entre o 1º e o 5º episódio, as diferenças nas médias dos comportamentos de apego foram estatisticamente significantes para Interação a Distância (1º episódio: m=12,70; DP=3,59; 5º episódio: m=6,80; DP=4,04; p=0,04) e Esquiva (1º episódio: m=3,70; DP=2,00; 5º episódio: m=1,70; DP=1,70; p=0,04), os quais foram mais freqüentes no 1º do que no 5º episódio. Já na comparação do 1º e do 3º de episódio, foi encontrada diferença estatisticamente significante somente no comportamento Interação a Distância (1º episódio: m=12,70; DP=3,59; 3º episódio: m=10,60; DP=4,92; p=0,02), o qual foi dirigido mais freqüentemente à mãe do que ao estranho (Tabela 1).
 
Discussão e Conclusão
Nesse estudo, os três grupos apresentaram resultados semelhantes quanto à freqüência da maioria dos comportamentos de apego, corroborando a expectativa inicial de que ao se considerar as peculiaridades do comportamento autista (ênfase nas respostas tanto quanto nas iniciativas), as diferenças entre os grupos se reduziriam.
Porém, em relação ao comportamento de Esquiva, no 1º episódio, cuja freqüência foi maior no grupo com autismo, cabem algumas reflexões. Neste episódio, o qual corresponde à entrada da criança na sala de observação, o grupo com autismo tendeu a ignorar as tentativas de aproximação e interação maternas. Cabe ressaltar que uma das características típicas do autismo é a preferência por situações familiares, facilmente controláveis (Klin, 2006; Wing & Gould, 1979). Por isso, o ambiente novo do Laboratório de Observação, onde foram realizadas as filmagens, pode ter sido um fator desencadeante dessa dificuldade, externalizando-se na forma de comportamento evitativo para com a mãe. Isso não pode ser explicado simplesmente por problemas no sistema de apego já que não houve diferenças entre os grupos no comportamento de Interação a Distância, nesse mesmo episódio, que se mostrou tão freqüente nesse grupo como nos outros dois.
Além disso, a comparação entre os episódios, neste grupo, mostrou ainda que os comportamentos de Interação a Distância foram mais freqüentes no 1º episódio do que no último, possivelmente porque as crianças utilizaram a mãe como uma base segura para as suas explorações iniciais em um ambiente pouco familiar, sugerindo segurança no apego (Bowlby, 1969/2002). Isso significa que as crianças apresentaram comportamentos de, entre outros, pegar objetos oferecidos pela mãe, executar ações solicitadas por ela, sorrir e olhar para a mãe, tanto quanto as crianças dos outros grupos.
Conforme Rutter (1996) as respostas às solicitações dos outros e os comportamentos para buscar assistência tendem a estar preservados neste grupo. Entretanto, o oferecimento espontâneo destes objetos e tentativas de chamar a atenção da mãe para uma variedade de situações, a fim de compartilhar estas descobertas, foram raras. As crianças pouco apontavam para mostrar os brinquedos e raramente faziam perguntas sobre os mesmos (as que apresentavam oralidade). Entretanto, respondiam a perguntas, ainda que de forma breve. A reciprocidade destes comportamentos seria esperada em crianças da idade dos participantes.
De acordo com Bowlby (1969/2002) no estágio mais avançado do sistema de apego, cujo ápice situa-se em torno dos 24 meses, ocorreria um discernimento intuitivo acerca das necessidades e interesses do parceiro, denominada de parceria corrigida para a meta. Como já discutido, esta característica na interação é um marcador do autismo, exaustivamente abordada na área de estudos compreendida como atenção compartilhada (Bosa, 2002a). Por outro lado, a redução do comportamento de Esquiva à mãe, no último episódio, comparado ao primeiro, também parece confirmar a premissa da ocorrência de comportamentos de apego influenciada pelo contexto (adaptação à situação desconhecida).
O argumento da existência de apego no grupo AU ganha relevo ainda com os resultados da comparação entre o 1º e o 3º episódio, onde foram encontradas diferenças significantes no comportamento de Interação a Distância, mais freqüente em relação à mãe do que ao estranho. Esses achados confirmam os resultados de outros estudos empíricos (Capps et al., 1994; Dissanayake & Crossley, 1996, 1997; Rogers et al., 1991, 1993; Shapiro et al., 1987; Sigman & Mundy, 1989; Sigman & Ungerer, 1984) que também têm mostrado que crianças com autismo claramente diferenciam os pais de um estranho, ao direcionar mais comportamentos de apego ao cuidador.
Na verdade, nas situações de reencontro com a mãe, após a sua saída, as crianças se mostravam contentes com o seu retorno, embora isso nem sempre ficasse visível para a mãe. A observação minuciosa mostrou que uma criança, por exemplo, aumentou as estereotipias motoras (agitar as mãos) quando a mãe retornou à sala - comportamento em geral ligado a situações de excitação (Wing, 1996). Outras olhavam para as mães de relance, enquanto estas se envolviam com alguma atividade, dificilmente percebendo o olhar do filho. De fato, Beckwith, Rozga e Sigman (2002); Capps et al. (1994); Rogers et al. (1991, 1993) já haviam chamado a atenção para o fato de que os comportamentos estereotipados, em especial os maneirismos, muitas vezes mascaram a qualidade da expressão dos comportamentos de apego.
Concluindo, este estudo possivelmente contribui para o conhecimento nesta área ao demonstrar que, em termos de comportamentos de apego, as crianças do grupo com autismo:
1. Reagiram de forma semelhante às crianças do grupo com síndrome de Down e mesmo às com desenvolvimento típico, alinhando-se aos achados de outros estudos. Dessa forma, não se pode explicar o perfil dos comportamentos apresentados pelas crianças com autismo apenas pelo diagnóstico, mas também por questões de imaturidade ou de um atraso global no desenvolvimento.
2. As diferenças encontradas relacionam-se mais com a qualidade da expressão do apego do que com sua freqüência/ausência.
3. A ambigüidade demonstrada na expressão do apego, ora buscando, ora se esquivando da interação com a mãe, parece ser influenciada pelo tempo de familiarização da criança com o ambiente.

A questão do contexto em que a ambigüidade na expressão ocorre é importante porque pode levar à impressão inicial de que essas crianças não demonstram apego a seus cuidadores. Porém, quando se utiliza um método que considera as características comportamentais dessa população atípica e se investiga, de uma forma sistemática, as sutis manifestações comportamentais destas crianças, verifica-se que esta noção não se confirma.
As implicações desses resultados para intervenções com os pais são importantes, à medida que se procura demonstrar que as peculiaridades de um comportamento, mesmo que de uma forma não-convencional, não se equacionam à ausência deste comportamento. Contudo, cabe lembrar que estes resultados talvez se apliquem somente a crianças com as características e nível de desenvolvimento dos participantes do estudo.
Outro aspecto que deve ser lembrado é que a natureza do ambiente de laboratório (bastante estruturado) apesar de pouco familiar, pode ter contribuído para a emergência das potencialidades das crianças. De fato, é amplamente documentado na literatura o efeito de ambientes estruturados sobre o comportamento de crianças com autismo (Dissanayake & Crossley, 1996, 1997). Se estes resultados se estendem a todo o espectro do autismo e em contextos naturalísticos, merece maior investigação.
 
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Desempenho de pessoas com autismo em tarefas de emparelhamento

Psicologia: Reflexão e Crítica
 
Psicol. Reflex. Crit. vol.21 no.3 Porto Alegre  2008
 
Desempenho de pessoas com autismo em tarefas de emparelhamento com o modelo por identidade: efeitos da organização dos estímulos
 
Effects of stimuli organization on identity matching-to-sample performances of persons with autism
 
 
Camila Graciella Santos Gomes; Deisy das Graças de Souza
Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, Brasil
 
 

RESUMO
O estudo avaliou o desempenho de 20 pessoas com autismo em uma tarefa de emparelhamento por identidade sob dois procedimentos que diferiram quanto à forma de apresentação dos estímulos e à resposta de escolha. No procedimento de matching típico cada tentativa apresentava um estímulo modelo e três de comparação; no matching adaptado três modelos e três estímulos de comparação eram apresentados simultaneamente. O procedimento foi conduzido em três blocos: 10 tentativas de matching adaptado, 10 de matching típico e 20 tentativas com os dois arranjos misturados. A média de acertos foi significativamente maior no matching adaptado, mas ocorreu acentuada variabilidade inter-individual e esse arranjo favoreceu principalmente o desempenho de participantes com escores menores. A história prévia de aprendizagem dos participantes, entre outros fatores, pode ter influenciado nesses resultados, o que requer melhor avaliação, com outros controles experimentais.
Palavras-chave: Relações condicionais; emparelhamento com o modelo; emparelhamento de identidade; formação de conceitos; autismo.

ABSTRACT
This study assessed the performance of 20 persons with autism in an identity matching-to-sample task, using two procedures with different stimuli arrangements and different response requirements. The typical matching procedure presented one sample stimulus and three comparison stimuli; the adapted matching displayed three sample stimuli and three comparison stimuli simultaneously. Three consecutive sets of trials were conducted: a 10-trial set of adapted matching, a 10-trial set of typical matching, and a 20-trial set intermixing both trial types in an unsystematic order. The average score of correct performance was significantly higher under the adapted matching than under the typical matching, but the inter-individual variability was large and the adapted arrangement favored mainly the performance of participants with lower scores. The participants' previous history in learning may have played a role in the way they solved the present task, but further investigation, with experimental controls additional will be necessary to evaluate this possibility.
Keywords: Conditional relations; identity matching-to-sample; concept formation; autism.

 
 
Tarefas de emparelhamento com o modelo (matching-to-sample ou MTS) são muito utilizadas para o ensino e a avaliação de relações condicionais, ou seja, relações entre estímulos, que podem dar origem à formação de classes de equivalência (Sidman & Tailby, 1982) e ao comportamento simbólico.
No emparelhamento com o modelo típico, a tarefa é constituída por uma seqüência ou conjunto de tentativas discretas, planejadas para ensinar relações entre dois conjuntos de estímulos, o conjunto dos estímulos modelo e o conjunto dos estímulos de comparação ou escolha. Em cada tentativa são apresentados um estímulo modelo e dois ou mais estímulos de comparação. Para cada modelo, há apenas um estímulo de comparação correto, referido com estímulo discriminativo ou S+ e todos os outros estímulos de comparação são incorretos, referidos como estímulos negativos ou S-. Ao longo da série de tentativas, os diferentes estímulos modelo vão se alternado e o estímulo de comparação correto é aquele que se pretende que o aprendiz relacione ao estímulo modelo presente. Esta característica do procedimento requer especial atenção do aprendiz para ambos os estímulos, uma vez que a seleção de um estímulo de comparação sem considerar o estímulo modelo pode levar a erro. Assim, a escolha de um estímulo que era o correto em uma tentativa, não garante que a escolha do mesmo estímulo será correta na tentativa seguinte ou em outras tentativas. Em situação de ensino, as respostas de escolha são seguidas por conseqüências diferenciais, ou seja, repostas corretas são reforçadas e escolhas incorretas não são seguidas de reforço (Saunders & Green, 1999).
O grau de correspondência entre modelos e comparações pode variar ao longo de um contínuo que inclui desde relações de identidade até relações puramente arbitrárias (de Rose, 2004). Quando a correspondência é baseada em identidade, um dos estímulos de comparação é igual ao estímulo modelo e os outros são diferentes. A tarefa do aprendiz é escolher, para cada modelo, o comparação idêntico e a tarefa é denominada matching de identidade. O ensino sistemático de relações de identidade pode dar origem ao desempenho de identidade generalizado, isto é, o indivíduo aprende a relacionar elementos iguais, mesmo que nunca tenha tido qualquer tipo de experiência prévia com eles, quando então se pode dizer que ele formou o conceito de igualdade (Catania, 1999; Dube, 1996; Serna, Dube, & McIlvane, 1997). Quando o emparelhamento com o modelo é arbitrário, não há similaridade entre modelo e comparação e a correspondência entre eles é baseada em relações inteiramente arbitrárias ou convencionais como, por exemplo, no caso de relações entre objetos e seus nomes, que variam de acordo com as convenções de cada comunidade verbal (de Rose, 2004; Dube, 1996).
Tarefas de emparelhamento com o modelo podem empregar estímulos de diferentes naturezas e que afetam diferentes modalidades sensoriais, dependendo de quais relações se pretende ensinar. Por exemplo, os estímulos podem ser auditivos, como sons e palavras ditadas, ou visuais, como figuras e palavras impressas, e as relações estabelecidas entre eles podem ser visuais-visuais, isto é, na mesma modalidade sensorial, ou auditivo-visuais, o que implica diferentes modalidades sensoriais (Dube, Green, & Serna, 1993); mas nada impede que sejam ensinadas relações nas quais um dos conjuntos inclua estímulos olfativos (Annet & Leslie, 1995), táteis (Belanich & Fields, 1999), gustativos (Hayes, Tilley, & Hayes, 1988) e até mesmo estímulos proprioceptivos (DeGrandpre, Bickel, & Higgins, 1992). Considerando a forma de apresentação dos estímulos, o emparelhamento com o modelo pode ser simultâneo ou com atraso. No matching simultâneo, como o próprio nome sugere, os estímulos modelo e os de comparação são apresentados simultaneamente, enquanto no matching com atraso, uma resposta ao estímulo modelo produz a remoção desse estímulo e a apresentação dos estímulos de comparação que, então, ficam disponíveis para escolha, na ausência do modelo (Gutowski & Stromer, 2003).
Dada a eficácia do emparelhamento com o modelo para ensinar relações entre estímulos e, sobretudo para engendrar a emergência de relações novas, não diretamente ensinadas, derivadas de um conjunto de relações ensinadas (Sidman, 1971, 1985, 1994; Sidman & Tailby, 1982), seu emprego torna-se especialmente importante para o ensino de indivíduos com necessidades especiais, entre os quais indivíduos com autismo. Apesar do uso amplamente disseminado do procedimento de emparelhamento com o modelo típico em situações de aplicação, com diversas populações (cf. Ghezzi, Williams, & Carr, 1999; Martin & Pear, 1978), a literatura especializada tem descrito dificuldades no ensino de relações condicionais a pessoas com autismo (eg., Eikeseth & Smith, 1992; Kelly, Green, & Sidman, 1998; Williams, Perez-González, & Queiroz, 2005). No estudo de Eikeseth e Smith (1992), por exemplo, o emparelhamento com o modelo foi empregado para ensinar, a autistas de alto funcionamento, relações arbitrárias envolvendo estímulos visuais. A quantidade de tentativas necessárias para que os participantes aprendessem as relações ensinadas na primeira fase do estudo variou entre 306 e 1.546. Os pesquisadores sugeriram que o elevado número de tentativas de treino poderia ser indício de problemas no procedimento de ensino e apontaram para a necessidade de se buscar outras formas mais eficientes de ensinar, como por exemplo, por meio do procedimento de ensino por blocos desenvolvido Saunders e Spradlin (1989).
Esse procedimento, desenvolvido com dois adultos com retardo mental severo que vinham apresentando dificuldades em aprender relações arbitrárias em tarefas de emparelhamento com o modelo, resultou de uma análise dos componentes do emparelhamento arbitrário e do planejamento de uma seqüência de ensino para cada um dos componentes. Era conduzido um bloco de tentativas consecutivas com um mesmo estímulo modelo, seguido por um bloco de tentativas consecutivas com outro estímulo modelo; essa alternância continuava até que o participante diminuísse o número de erros; então, o número de tentativas por bloco com um mesmo estímulo modelo diminuía, ao mesmo tempo em que aumentava-se a freqüência de alternância entre os blocos até que, finalmente, a apresentação dos estímulos modelos passava a ser randomizada, sem que os participantes cometessem erros na seleção do estímulo de comparação correto. O estudo mostrou que os participantes não só aprenderam as discriminações iniciais, mas também aprenderam novas relações com maior rapidez (Saunders & Spradlin, 1990).
Uma adaptação do procedimento de Saunders e Spradlin (1989, 1990) foi empregada por Williams et al. (2005) para ensinar relações auditivo-visuais entre cores (branco e preto) e os nomes correspondentes a um adolescente com autismo. Neste estudo foram necessárias 792 tentativas de treino para que o participante aprendesse a discriminar entre as duas cores.
Em outro estudo que visava ensinar e avaliar relações de identidade entre estímulos visuais e relações arbitrárias auditivo-visuais com uma criança com autismo, Kelly et al. (1998) verificaram que o desempenho do participante nas tarefas de matching de identidade variava de acordo com a maneira pela qual as tarefas eram apresentadas (usando um computador ou material concreto) e também, de acordo com o número de estímulos de comparação presentes. Os autores concluíram que o baixo desempenho da criança em algumas tarefas provavelmente resultou dos procedimentos utilizados, tanto no ensino quanto nos testes. Com base nesses resultados os autores sugeriram que, em investigações sobre controle de estímulos, os pesquisadores questionem seus procedimentos quando o participante não exibir um tipo específico de controle de estímulos que se pretendia estabelecer. Em outras palavras, antes de concluir, apressadamente, que o indivíduo não aprende, é preciso perguntar se não é o procedimento que não ensina (cf. Keller, 1968; Sidman, 1985).
O programa TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Communication Handicapped Children), desenvolvido por Schopler na década de 1970 na Universidade da Carolina do Norte e utilizado para educar pessoas com autismo em muitos países, inclusive no Brasil, emprega, como recurso para o ensino de relações condicionais, tarefas de emparelhamento com o modelo adaptadas, de acordo com a metodologia geral utilizada pelo programa (Lewins & de Leon, 1995; Mesibov, Schopler, & Hearsey, 1994; Tulimoschi, 2002).
A adaptação leva em consideração alguns aspectos da aprendizagem de pessoas com autismo e critérios de educação estruturada e, diferentemente do matching típico ou padrão, que apresenta um estímulo modelo e dois ou mais estímulos de comparação, o matching adaptado apresenta o mesmo número de estímulos modelos e comparações simultaneamente (TEACCH, 1992). A principal justificativa para esta adaptação é que pessoas com autismo parecem responder melhor a tarefas que sejam visualmente lógicas, ou seja, tarefas em que a própria organização dos estímulos indique ao aprendiz o que ele deve fazer sem a necessidade de muitas instruções verbais. Além disso, o fato de emparelhar os estímulos um a um, até completar todos os pares, torna a atividade mais óbvia, indicando visualmente o término da tarefa, uma vez que nenhum estímulo fica "sobrando", sem um par (Mesibov et al., 1994; Peetres, 1998).
Apesar do matching adaptado ser aparentemente adequado às características de aprendizagem de pessoas com autismo e de ser bastante utilizado em instituições que empregam a metodologia do programa TEACCH, a literatura não registra dados de estudos empíricos para a verificação de sua efetividade, nem de sua contribuição relativa, em comparação com o matching típico. Por esse motivo, o objetivo deste estudo foi avaliar o desempenho de participantes com autismo em tarefas de matching de identidade no procedimento típico e no procedimento adaptado.
 
Método
Participantes
Realizaram as tarefas propostas vinte pessoas com diagnóstico de autismo, cinco mulheres e quinze homens, com idades entre quatro anos e onze meses e trinta e um anos. Sete participantes estavam matriculados em escolas regulares e treze em escolas especiais. Onze utilizavam a fala para se comunicar e nove não falavam. A Tabela 1 apresenta a lista de participantes e suas principais características.
Os critérios de seleção dos participantes incluíram diagnóstico prévio de autismo e disponibilidade da família e da escola para a participação do aluno na pesquisa; além dis-so, procurou-se assegurar que os participantes não tivessem experiência prévia de treino rotineiro no mesmo tipo de tarefa. As escolas especiais escolhidas para a avaliação não utilizavam o programa TEACCH de maneira sistemática, apesar de já terem utilizado ou ainda utilizarem algumas estratégias de ensino com base no programa. Tanto o recrutamento dos participantes quanto os demais procedimentos empregados no estudo foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos, para um projeto mais amplo de ensino de relações condicionais a pessoas com autismo (Parecer número 234/2006).
Antes do início do procedimento com as tarefas de emparelhamento os participantes foram avaliados com referência na escala CARS - Childhood Autism Rating Scale (Schopler, Reichler, & Renner, 1988). Este instrumento permite identificar pessoas com características comportamentais de autismo e distinguir entre autismo e atraso no desenvolvimento sem autismo. De acordo com a escala, os resultados da avaliação podem ser distribuídos em três categorias: desenvolvimento normal, autismo leve/moderado e autismo grave. Apesar de ser direcionada para a avaliação do desenvolvimento infantil, esta escala foi utilizada neste estudo com pessoas de até dezesseis anos para se obter referência a respeito de seus repertórios, devido à facilidade de sua utilização e à falta de outra escala mais adequada. Os participantes com idade acima de 16 anos não foram avaliados pela escala, mas tinham diagnóstico médico de autismo relatado pela família ou registrado no prontuário escolar. Os participantes com Síndrome de Asperger também não foram avaliados pela CARS, pois apesar deste transtorno ser considerado dentro de um contínuo autístico (Wing, 1988), a escala não é adequada para avaliar esse quadro.
Situações e Materiais
Sessões individuais foram conduzidas em uma sala de um consultório particular para atendimento educacional ou em uma sala de aula da escola que os participantes freqüentavam, devidamente reservada para a avaliação e adequada às necessidades da pesquisa. As salas eram mobiliadas com uma mesa, duas cadeiras e uma filmadora.
O participante sentava-se à mesa, voltado para a parede e a pesquisadora permanecia atrás dele. Em algumas situações na escola especial estava presente um professor ou acompanhante do participante. Em geral, cada participante realizou as tarefas em uma única sessão, que teve entre quinze e trinta minutos de duração.
Todas as tentativas das tarefas de emparelhamento com o modelo foram montadas em divisórias de fichário na cor branca, de 21 cm x 30 cm e organizadas seqüencialmente em um fichário. As divisórias serão denominadas páginas, para conveniência de expressão. O fichário era apresentado aberto, de modo que duas páginas ficavam à mostra, uma à esquerda e outra à direita. Utilizou-se também figuras, velcro e palitos de madeira. As figuras usadas nos dois tipos de tarefas de emparelhamento eram fotografias, desenhos coloridos, pictogramas em preto e branco, palavras impressas, seqüências de letras e figuras compostas por números e quantidades.
No matching típico cada tentativa apresentava um estímulo modelo fixo na parte superior da página à direita e três estímulos de comparação fixos na parte inferior da mesma, como mostra a Figura 1 (Painel A). Na página à esquerda ficava um palito de madeira, preso com velcro (sinalizador). Abaixo de cada estímulo de comparação havia também um pedaço de velcro no qual o participante podia prender o sinalizador para indicar sua escolha.
 

 
No matching adaptado cada tentativa apresentava três estímulos modelos fixos na página da direita e três estímulos de comparação móveis, que tinham velcro na parte de atrás e eram apresentados presos ao velcro da página à esquerda; esses estímulos podiam ser removidos e pregados sobre cada um dos estímulos modelos da página à direita, que tinham pequenos pedaços de velcro na parte superior e inferior, como mostra a Figura 1 (Painel B).
Todas as tentativas das tarefas de emparelhamento com o modelo eram organizadas da esquerda para a direita: com esse arranjo visual o participante iniciava a atividade pegando os estímulos que ficavam presos à esquerda com velcro (o sinalizador, no caso do matching típico, e figuras, no caso do matching adaptado) e, em seguida, colocava-os presos ao velcro dos estímulos à direita (abaixo de um dos estímulos de comparação no matching típico e sobre cada estímulo modelo no matching adaptado). Quando a página da esquerda ficava vazia, isso indicava que aquela tentativa tinha terminado; o participante podia então virar a página e fazer a atividade seguinte (o que se repetia até o término das tentativas).
Procedimento
A seqüência das tentativas, assim como os estímulos utilizados, eram similares nos dois tipos de emparelhamento. As tarefas, aplicadas em uma única sessão, foram divididas em três blocos de tentativas; o primeiro apresentava tentativas de matching adaptado, o segundo apresentava tentativas de matching típico e o terceiro misturava os dois tipos de tentativas em seqüência aleatória, como resumido na Tabela 2.
 
 
O primeiro e o segundo blocos incluíam dois tipos de tentativas: tentativas de treino e tentativas de teste (ver Tabela 2). As tentativas de treino, realizadas antes das tentativas de teste, tinham a função de ensinar a tarefa que seria requerida no teste. Nessas tentativas a pesquisadora apresentava instruções verbais e ajuda física, que eram retiradas assim que o participante conseguisse executar a tarefa corretamente. Respostas corretas eram consequenciadas com eventos potencialmente reforçadores, identificados para cada participante, enquanto respostas incorretas eram seguidas de "não" e ajuda física para a correção. O critério para o término do treino e início dos testes era de duas tentativas consecutivas de treino corretas, sem ajuda da pesquisadora, em um único bloco de 10 tentativas. Caso as 10 tentativas fossem completadas sem que o participante apresentasse duas seleções corretas, ele não prosseguia para o teste. Caso as duas tentativas corretas consecutivas ocorressem antes que se completassem 10 tentativas, o treino era interrompido e tinha início imediatamente o teste.
Bloco 1 - Matching Adaptado. Nas 10 tentativas de teste com tarefas de matching adaptado o participante deveria pegar cada um dos três estímulos de comparação à esquerda e colocar sobre um estímulo modelo igual, na página à direita (ver Figura 1B e Tabela 2). O critério para que a tarefa fosse considerada correta era o acerto da relação de identidade entre os três estímulos modelos e seus respectivos estímulos de comparação; caso o participante acertasse apenas uma ou duas das relações, a tentativa era considerada incorreta.
Bloco 2 - Matching Típico. Nas 10 tentativas de teste com tarefas de matching típico o participante deveria pegar o sinalizador à esquerda e colocá-lo em baixo de um dos estímulos de comparação à direita (ver Figura 1A e Tabela 2). A resposta de seleção era considerada correta se o palito fosse colocado abaixo do estímulo de comparação idêntico ao estímulo modelo.
Bloco 3 - Matching Adaptado e Matching Típico misturados. O terceiro bloco tinha 20 tentativas de teste com as mesmas tarefas utilizadas no primeiro e no segundo blocos, 10 tentativas para cada tipo de arranjo, porém os dois tipos de tentativas eram misturados ao longo da seqüência. Esse bloco não foi precedido por tentativas de treino (ver Tabela 2) e a seqüência na apresentação dos dois tipos de tarefas não era fixa nem previsível.
Por tratar-se de uma avaliação, não havia conseqüências programadas para acerto e erro e nenhum procedimento de ajuda ou correção foi utilizado durante os testes, nos três blocos. Em alguns momentos da sessão eram apresentados elogios e incentivos verbais para manter o participante realizando as atividades até o término da avaliação, porém estas intervenções não eram contingentes a acertos ou erros.
Todas as sessões foram filmadas e o registro do desempenho dos participantes foi realizado a partir dos vídeos. Dois observadores independentes e ingênuos em relação ao propósito da pesquisa registraram 50% das sessões e a porcentagem de concordância foi de 100%.
 
Resultados
A Figura 2 mostra a porcentagem de acertos dos participantes individuais nas tentativas de matching típico ou padrão (barras cinza) e nas tentativas de matching adaptado (barras pretas), quando esses dois tipos de tarefas foram conduzidos separadamente nos Blocos 1 e 2 (painel superior) e no terceiro bloco, quando os dois tipos de tentativas eram misturados ao longo de uma seqüência de 20 tentativas (painel inferior).
No primeiro bloco, com tentativas de matching adaptado (ver barras pretas no painel superior), seis participantes (1, 4, 9, 10, 12 e 19) apresentaram 100% de acertos, sete (6, 13, 14,15, 16,17, 18) obtiveram 60% ou mais de acertos (mas não atingiram 100 %) e sete tiveram desempenho abaixo de 60% (2, 3, 5, 7, 8, 11 e 20). A menor porcentagem de acertos foi 20% (participantes 11 e 20), próximo do nível de acaso, que era de 33%. No segundo bloco, no qual foram realizadas tarefas de matching típico (ver barras cinzas no painel superior), três dos participantes que haviam apresentado 100% de acertos no Bloco 1 mantiveram o desempenho acurado (1, 4 e 19); os outros três apresentaram muitos erros, acertando entre 30 e 60 % das tentativas (9, 10 e 12). Essa tendência a aumento na quantidade de erros na mudança do tipo de arranjo dos estímulos também foi observada para a maioria dos outros participantes, que apresentaram acertos abaixo de 60%, inclusive cinco participantes (9, 10, 12, 13 e 16) que haviam apresentado desempenho acima de 80% de acertos no matching adaptado, três dos quais passaram a apresentar porcentagem de acertos abaixo de 40% (próximo do nível do acaso). Finalmente, quatro participantes apresentaram ganhos da ordem de 20% a 30% no matching típico, em relação aos seus acertos no matching adaptado (2, 3, 11 e 20). Dois participantes (5 e 8) não realizaram esse bloco por não terem alcançado o critério nas tentativas iniciais de treino. Portanto, uma minoria dos participantes apresentou desempenho acurado em uma ou em ambas as condições de matching de identidade; os demais apresentaram escores intermediários ou baixos, ao nível do acaso e o desempenho mostrou tendência a piorar quando a tarefa mudou de matching adaptado para matching típico.
O terceiro bloco, no qual a apresentação das tentativas de matching típico e de matching adaptado foram misturadas aleatoriamente (ver painel inferior na Figura 2), foi realizado por 15 dos 20 participantes; os outros cinco participantes (5, 7, 8, 15 e 20) não fizeram as tarefas desse bloco por não terem conseguido completar o bloco anterior ou por questões comportamentais. Oito dos participantes atingiram 100% de acertos nas tentativas de matching adaptado: os mesmos seis que também acertaram 100% no Bloco 1 e dois outros que haviam acertado mais de 80% naquele bloco (13 e 16); em comparação, no matching típico, apresentaram 100% de acertos somente os mesmos três participantes que já haviam atingido esse nível de acertos no Bloco 2. Seis participantes apresentaram escores na faixa de 40 a 60%, mesmo na condição em que apresentaram os melhores desempenhos. Nove dos quinze participantes apresentaram mais erros nas tentativas de matching típico (quatro que obtiveram 100% e cinco que obtiveram escores intermediários no matching adaptado) e apenas um participante teve maior porcentagem de acertos no matching típico, em relação ao matching adaptado. De modo geral, apesar da variabilidade entre participantes quanto ao nível de acertos, a tendência nesse bloco foi a mesma observada nos dois primeiros: desempenhos mais precisos e corretos no matching adaptado. Essa tendência ficou mais evidente na Figura 3, que mostra a porcentagem média de acertos nos dois procedimentos, quando apresentados em separado, nos Blocos 1 e 2 (barras à esquerda) ou quando misturados, no Bloco 3 (barras à direita): a média foi de, respectivamente, 44 e 50% no matching típico e de 67 e 77% no matching adaptado. Portanto, a média de acertos na situação de matching adaptado foi maior do que na situação de matching típico e a diferença, da ordem de 25%, foi estatisticamente significativa; aplicando-se o Teste de Wilcoxon de Postos Sinalizados, verificou-se a diferença significativa para os Blocos 1 e 2, ao nível de 0,4% e para o Bloco 3 ao nível de 1,2%. Os dados ainda mostram um pequeno incremento, não significativo, da primeira para a segunda apresentação de cada tipo de procedimento, resultado esse que pode ter sido um artefato gerado pela não inclusão, no Bloco 3, de cinco participantes que tinham apresentado escores muito baixos nos dois primeiros blocos.
 
 
Uma análise mais detalhada das escolhas dos participantes no matching típico, a partir de dados de observação, evidenciou que aproximadamente metade dos participantes (3, 6, 7, 9, 10, 11, 14,16, 18 e 20) escolheu, sistematicamente, estímulos em uma mesma posição ao longo de tentativas sucessivas, tanto no Bloco 2 quanto no Bloco 3; esse padrão de desempenho resultou em uma probabilidade de acertos ao acaso (33%) ou próximo do acaso e, portanto, não indica escolha sob controle da igualdade entre os estímulos. A preferência foi maior para a posição do centro (cinco participantes mostraram preferência exclusiva e três mostraram preferência acentuada), seguida pela posição à esquerda (seis participantes). Um exame da distribuição de escolhas de todos os participantes mostrou que a posição à direita foi a menos escolhida (por 55 e 27% dos participantes, nos Blocos 2 e 3, respectivamente), e a posição central foi escolhida pelo maior número de participantes (85% e 93% nos Blocos 2 e 3, respectivamente); a posição à esquerda foi selecionada pelo menos uma vez por 70% dos participantes no Bloco 2 e por 73% no Bloco 3. Nas tentativas de matching adaptado, nos Bloco 1 e 3, não era possível escolher estímulos em uma mesma posição, pois os participantes tinham que distribuir todos os estímulos de comparação sobre os estímulos modelo.
Uma outra análise considerou o desempenho dos participantes nas duas condições em função de algumas de suas características e histórias pessoais. Foram considerados os seguintes aspectos: presença ou não de repertório verbal, tipo de escola freqüentada e classificação na CARS. Os resultados são apresentados na Figura 4. Nessa figura, para cada tipo de variável é apresentada a distribuição percentual de participantes segundo a maior porcentagem de acertos no matching adaptado, maior porcentagem de acertos no matching típico ou porcentagens aproximadamente iguais nos dois tipos de tarefas. Os resultados evidenciam que participantes não verbais, que eram alunos de escolas especiais e obtiveram classificação grave na CARS foram os que apresentaram as maiores discrepâncias nos desempenhos entre os dois tipos de matching, apresentando mais acertos no matching adaptado do que no matching típico. Entre os participantes que apresentaram 100% de acertos nas duas tarefas, todos apresentavam comportamento verbal desenvolvido e freqüentavam escolas regulares. Os sintomas de autismo desses participantes eram diferentes; o Participante 1 teve pontuação leve/moderado na CARS, o Participante 2 teve pontuação grave, o Participante 4 apresenta Síndrome de Asperger e o Participante 19 apresenta autismo de alto funcionamento.
 
Discussão
O objetivo deste estudo foi descrever o desempenho de pessoas diagnosticadas com autismo na realização de uma mesma tarefa, o emparelhamento de identidade com o modelo, organizada de duas maneiras diferentes. A organização se referia ao emprego do matching típico, no qual cada tentativa apresentava um estímulo modelo e três estímulos de comparação, ou do matching adaptado, que apresentava três estímulos modelos e três estímulos de comparação. Esse arranjo é semelhante a tarefas comuns encontradas em livros ou exercícios escolares, quando o aluno tem, por exemplo, que emparelhar elementos ligando os itens correspondentes de dois conjuntos.
Para a finalidade do presente estudo, todos os participantes realizaram ambas as tarefas, primeiro em blocos separados de tentativas para cada tipo de matching e depois em um bloco que misturava esse dois tipos de tentativas. Esse tipo de avaliação de desempenho em duas situações instrucionais diferentes é relevante com pessoas com autismo, pelas peculiaridades destes indivíduos em relação à maneira como se comportam e como aprendem, ressaltadas pela diversificada literatura da área (Frith, 1989; Lovaas, Schreibman, Koegel, & Rehm, 1971; Peeters, 1998; Rivière, 1995).
Relatos de dificuldades no ensino de relações condicionais para autistas, seja por emparelhamento de identidade ou por emparelhamento arbitrário, especialmente o auditivo-visual, têm sido comuns (Eikeseth & Smith, 1992; Kelly et al., 1998; Williams et al., 2005), e a investigação dessas dificuldades, assim como o desenvolvimento de estratégias para remediá-las, é fundamental para que práticas que visam ensinar relações condicionais sejam mais efetivas, requeiram menor número de treinos e resultem em melhor desempenho dos participantes (Dube, 1996). O campo dispõe de uma tecnologia de ensino bastante completa, que parte do repertório do aluno e o desenvolve em pequenos passos ao longo de uma seqüência bem definida a partir de resultados experimentais (Dube, 1996; Serna et al., 1997); e quando, mesmo seguindo pequenos passos o aluno não alcança sucesso em progredir de uma etapa para a outra, a "rota" de treinos dispõe de passos intermediários ainda menores, visando superar essas dificuldades.
Nesse estudo, o objetivo não foi ensinar, mas avaliar o repertório dos indivíduos com autismo em emparelhamento de identidade generalizada e verificar se a maneira pela qual a tarefa é apresentada afeta esse desempenho. Apesar de tratar-se da mesma tarefa, ou seja, tanto no matching típico quanto no matching adaptado o participante tinha que relacionar estímulos de comparação aos estímulos modelos com base em sua similaridade física, a forma de apresentação dos estímulos modelos e comparações, assim como as respostas requeridas dos participantes nos dois tipos de tarefa, eram diferentes, como descrito nas seções precedentes. No matching típico, que tem sido um recurso amplamente utilizado com diversas populações (Gutowski & Stromer, 2003), para apresentar uma resposta correta o participante precisa olhar para o estímulo modelo, para os estímulos de comparação e indicar apenas uma escolha. No matching adaptado, que é organizado de acordo com critérios do programa TEACCH (1992) e tem sido utilizado em muitas instituições de ensino especializado que atendem pessoas com autismo (Lewins & de Leon, 1995; Tulimoschi, 2002), o participante deve observar cada estímulo modelo e cada estímulo de comparação e emparelhar cada estímulo de comparação com um dos modelos. Aparentemente, a tarefa de matching adaptado é mais difícil de ser executada por requerer do participante três respostas motoras enquanto o matching típico requer apenas uma; além disso, apresenta dois estímulos a mais para serem examinados e emparelhados, uma vez que a tarefa apresenta três estímulos modelos, e não apenas um.
Embora esta análise pudesse sugerir maior dificuldade dos participantes no matching adaptado, os resultados indicaram que esse arranjo resultou em um desempenho melhor do que no matching padrão ou típico. Muitos participantes que apresentaram uma porcentagem de acertos alta nas tarefas adaptadas, em contraste obtiveram baixa porcentagem de acertos nas tarefas de matching típico. Esses resultados podem refletir os efeitos combinados de uma série de variáveis, algumas das quais relacionadas às características do autismo e às histórias prévias de aprendizagem dos participantes do estudo, além das próprias características da organização da tarefa nas duas condições.
Em relação ao autismo, a literatura especializada relata que estas pessoas apresentam dificuldades em aprender por métodos convencionais de ensino, pouca flexibilidade no raciocínio, tendência a manter rotinas, dificuldades frente a situações inesperadas e dificuldades na compreensão de estímulos auditivos, respondendo melhor a estímulos visuais e a situações previsíveis (Lewins & de Leon, 1995; Peeters, 1998). Descreve-se também respostas idiossincráticas aos estímulos do ambiente e controle restrito de estímulos, demonstrado pela tendência a manter o foco da atenção em detalhes e dificuldades em estabelecer relações entre as partes e o todo (Happé & Frith, 2006; Lambertuci & Magalhães, 2005; Lovaas et al., 1971).
Os autores do programa TEACCH, que foi desenvolvido especificamente para educar pessoas com autismo e com alterações na comunicação, afirmam que autistas podem aprender com mais facilidade quando as tarefas são visualmente estruturadas e sugerem três aspectos para essa estruturação: clareza visual, organização visual e instrução visual. Segundo os autores, a clareza visual refere-se aos materiais e modelos utilizados que permitem identificar as características mais importantes da tarefa e reduzir os desvios de atenção. A organização visual refere-se à maneira como a tarefa é organizada, favorecendo que a pessoa compreenda aquilo que deve ser feito. A instrução visual refere-se a aspectos visuais da tarefa que indicam como deve ser feita; por exemplo, onde deve ser iniciada e onde termina (Mesibov et al., 1994).
A maneira pela qual o matching adaptado foi estruturado neste estudo podia favorecer a percepção do início e do término da tarefa pela presença ou ausência de estímulos de comparação na página da esquerda; isto é, enquanto restassem estímulos naquela página, cada um deles deveria ser retirado e colocado sobre o igual na página da direita; quando já não restassem figuras naquela página, a tentativa estava terminada. A disposição dos estímulos também pode favorecer o direcionamento da observação para todos os estímulos, já que requer que cada estímulo de comparação seja colocado sobre um estímulo modelo. Além disso, implica relações visualmente lógicas entre os estímulos (cada estímulo tem seu par). Por outro lado, quando o participante começa a atividade, o primeiro estímulo de comparação que ele coloca sobre um dos estímulos modelos é escolhido entre três estímulos de comparação; já o segundo estímulo de comparação é escolhido entre dois estímulos e no terceiro não há escolha e o participante apenas pega o último estímulo de comparação e o coloca sobre o estímulo modelo restante. Essa característica do procedimento pode favorecer a escolha por exclusão (Dixon, 1977). Contudo a escolha por exclusão não constitui necessariamente um problema. O responder por exclusão pode ser uma estratégia de ensino eficiente para estabelecer relações entre estímulos (McIlvane & Stoddard, 1981; McIlvane, Wilkinson, & de Souza, 2000), especialmente se diferentes estímulos forem a única escolha disponível ao longo das tentativas e se essa escolha estiver correta; isto é, se, apesar da escolha ter sido por exclusão, a resposta correta produzir feedback de acerto, esse feedback pode fortalecer a relação entre o estímulo modelo e o estímulo de comparação (Ferrari, de Rose, & McIlvane, 1993).
As dificuldades em relação ao matching típico podem residir no fato de que a tarefa não necessariamente requer a observação de todos os estímulos e, apesar da presença ou ausência do sinalizador à esquerda poder tornar-se um indicador de início ou término da atividade, a escolha de apenas um dos estímulos de comparação deixa os outros dois "sem par" e, para quem apresenta um pensamento pouco flexível e compreende melhor situações visualmente lógicas, a situação pode indicar que algo está faltando e que a tarefa não terminou. Por não requerer que o participante olhe para todos os estímulos, a tarefa pode levar o participante a observar apenas o sinalizador, apenas os estímulos de comparação ou parte deles, ou ainda somente os pedaços de velcro abaixo das figuras. O fato de muitos participantes terem mostrado tendência a escolher estímulos em uma mesma posição, especialmente no centro ou na esquerda (mas quase nunca à direita), sugere fortemente que o comportamento ocorreu sob controle da posição: a mais próxima (menor distância entre o palito na página da esquerda e o primeiro estímulo de comparação na página da direita) ou a mais central (uma possível "lógica" diferente da planejada pelo experimentador, que era a relação de identidade entre modelo e comparação). Essas diferentes topografias de controle de estímulos (Dube & McIlvane, 1996) sugerem, portanto, controle restrito de estímulos, tal como encontrado freqüentemente no ensino de autistas (Litrownik, McInnis, Pritchard, & Filipelli, 1978; Lovaas, Koegel, & Schreibman, 1979; Lovaas et al., 1971) e sugerem, principalmente, que o matching típico pode favorecer a ocorrência desse tipo de controle, mais do que o matching adaptado.
Em relação às características dos participantes, os dados indicaram que a maioria dos participantes não verbais, estudantes de escolas especiais e com pontuação grave na CARS, apresentou melhor desempenho no matching adaptado, o que pode sugerir que os autistas mais comprometidos mostram mais dificuldades no matching típico e sendo assim, poderiam se beneficiar mais de estratégias de ensino que utilizem o matching adaptado, pelo menos em uma fase inicial de ensino. É importante considerar, no entanto, que seria fundamental programar o ensino de modo a levar o aluno, gradualmente, a responder sob controle de estímulos apropriado também no matching típico e, desse modo, ampliar seu repertório e sua flexibilidade comportamental; se o indivíduo apresenta rigidez no comportamento e as contingências de ensino incorporam essa característica e não requerem mudanças, a própria história de aprendizagem pode fortalecer ainda mais o padrão de inflexibilidade.
Os autistas verbais, que freqüentam escolas regulares e com pontuação leve/moderado na CARS, apesar de também terem apresentado melhor desempenho no matching adaptado, mostraram-se mais "flexíveis" em relação ao matching típico. Alguns desses participantes até mesmo demonstraram melhor desempenho nesse último tipo de arranjo, enquanto outros apresentaram desempenho similar nos dois tipos de matching. O repertório verbal desenvolvido é claramente produto de história de aprendizagem e a exposição à escola regular pode envolver experiências com tarefas similares à requerida no matching típico. Para esses participantes, o ensino sistemático pelo matching típico, intercalado com o ensino de algumas relações pelo matching adaptado, poderia ser uma estratégia adequada para aprimorar o repertório de identidade generalizada e o repertório conceitual (igual e diferente) e dar início ao ensino de relações arbitrárias. O emparelhamento adaptado, especialmente para matching de identidade, poderia garantir maior densidade de reforçamento e assim funcionar como "tarefa com tentativas fáceis", com a função, sobretudo, de manter o indivíduo engajado na tarefa (alto valor reforçador) e com um repertório de atenção e persistência comportamental que são necessárias para a aprendizagem discriminativa.
A afirmação de Kelly et al. (1998) de que os procedimentos utilizados podem influenciar no desenvolvimento de controle de estímulos encontrou apoio empírico neste estudo de avaliação. O maior número de acertos no matching adaptado sugere que, para a maioria dos participantes deste estudo, com o repertório que apresentavam, esse tipo de organização dos estímulos beneficiou a demonstração de controle de estímulos e poderia favorecer a aprendizagem de novas relações condicionais envolvendo estímulos visuais.
É importante considerar, contudo, que este estudo não pretendeu ensinar e que o reduzido número de tentativas, de fato não ensinou, apenas mediu o desempenho. Portanto, os presentes resultados não podem se comparar aos de estudos que empregaram centenas de tentativas, uma vez que aqueles estudos tinham o objetivo de ensinar relações arbitrárias, que apresentam maior dificuldade que o emparelhamento por identidade.
Outra consideração que deve ser feita é que, na população de 20 participantes, apenas três chegaram a mostrar um repertório de identidade generalizada plenamente desenvolvido, de modo a independer dos arranjos dos estímulos na tarefa; seis apresentaram identidade generalizada apenas sob as condições de matching adaptado, o que sugere a necessidade de condições de ensino adequadas, como comentado antes, para o pleno desenvolvimento desse repertório e o avanço para o estabelecimento de relações arbitrárias entre estímulos, se se pretende promover o desenvolvimento cognitivo, e especialmente o desenvolvimento da função simbólica, fundamental na linguagem, com essa população. Os demais participantes não mostraram emparelhamento generalizado nem sob o matching adaptado; embora seu desempenho tenha sido mais acurado nessa condição, no geral escores ao redor de 60% ou menos indicam que o repertório não pode ser caracterizado como identidade generalizada e, portanto, esses participantes requerem uma programação de ensino sistemática, aplicada de maneira regular e freqüente, para superar os déficits presentes e avançar para repertórios mais avançados.
A natureza dos dados obtidos no presente estudo e o estágio de desenvolvimento do repertório comportamental dos participantes que geraram esses dados sugerem fortemente a necessidade de uma avaliação mais ampla, com participantes com outros repertórios. Por exemplo, com crianças com desenvolvimento típico que apresentem identidade generalizada, os resultados independeriam do tipo de arranjo dos estímulos, como ocorreu para os autistas que apresentaram 100% de acertos neste estudo? Por outro lado, dadas as dificuldades para a criação de condições adequadas para o ensino de discriminações simples e condicionais com bebês (Bijou, 1957; Gil & Oliveira, 2003; Gil, Oliveira, Sousa, & Faleiros, 2006; Oliveira, 2003, 2007; Weisberg &Rovee-Collier, 1998), poderia o matching adaptado constituir uma etapa inicial e eficaz de ensino? Essas são algumas das questões levantadas pelo presente estudo, cuja investigação empírica poderá contribuir para uma melhor compreensão sobre as condições para o ensino de discriminações como fundamento para a construção de repertórios comportamentais mais complexos não só a indivíduos com autismo, mas também a outras populações que requerem condições especiais de ensino.
 
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Estratégias de coping de mães de portadores de autismo

Psicologia: Reflexão e Crítica
Psicol. Reflex. Crit. vol.20 no.1 Porto Alegre  2007

Estratégias de coping de mães de portadores de autismo: lidando com dificuldades e com a emoção
 
Coping strategies of mothers of autistic children: dealing with behavioral problems and emotions
 
 
Carlo Schmidt*; Débora Dalbosco Dell'Aglio**; Cleonice Alves Bosa
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil
 
 

RESUMO
Estudos têm apontado evidências de estresse em famílias de portadores de autismo. Neste processo, deve-se considerar as estratégias de coping utilizadas pelos familiares frente às circunstâncias adversas. O objetivo deste estudo foi verificar as estratégias de coping maternas frente a dificuldades dos portadores de autismo, assim como as estratégias das mães para lidar com as próprias emoções desencadeadas pelo estresse. Participaram 30 mães, entre 30 a 56 anos, cujos filhos apresentam diagnóstico de autismo e freqüentam instituições de atendimento. Utilizou-se uma entrevista semi-estruturada, a qual foi transcrita e analisada com base na Análise de Conteúdo. As principais dificuldades se referem ao comportamento do filho, frente às quais as mães utilizam predominantemente as estratégias de ação direta e de aceitação. Quanto às estratégias para lidar com as emoções, as categorias mais freqüentes foram distração, busca de apoio social/religioso, inação e evitação. Os resultados são discutidos considerando-se o estresse e a adaptação materna.
Palavras-chave: Autismo; estresse materno; estratégias de coping.

ABSTRACT
Many studies have shown evidence of high levels of stress in families with autistic children. Concerning this process, it is important to consider the coping strategies used by family members in face of the adverse circumstances. The purpose of this study is to investigate the coping strategies of mothers when dealing with their autistic children, as well as how they deal with their own emotions unleashed by the stress. Thirty mothers, between 30 and 56 years old participated in the study. Their children have met the criteria for autism and attended special education schools. The coping strategies were investigated using a semi-structured interview, which was transcribed and analyzed by content analysis. The main difficulties refer to the child's behavior. In relation to these difficulties, the strategy used by the mothers was predominantly direct action and acceptance. Concerning the strategies to deal with their own emotions, the most frequent categories were distraction, reaching out for social/religious support, lack of action and avoidance. Results are discussed in terms of stress and maternal adaptation model.
Key words: Autism; maternal stress; coping strategies.

 
 
Pesquisas têm investigado a natureza dos eventos causadores de estresse e as características próprias da criança com autismo que exercem um impacto sobre os familiares (Bouma & Schweitzer, 1990; Saloviita, Itälinna & Leinonen, 2003). Porém, deve-se considerar como parte integrante deste processo, as formas utilizadas pelos familiares para lidar com o estresse, ou seja, as estratégias de coping1 utilizadas frente a situações decorrentes do quadro de autismo apresentado pelos seus filhos.
Os estudos sobre autismo têm apresentado uma evolução ao longo do tempo, no que se refere ao seu conceito e formas de compreensão, identificando diferentes etiologias, graus de severidade e características específicas ou não usuais. A tendência nas definições atuais de autismo é a de conceituá-lo como uma síndrome comportamental, de etiologias múltiplas, que compromete o processo do desenvolvimento infantil (Facion, Marinho & Rabelo, 2002; Gadia, Tuchman & Rotta, 2004; Gillberg, 1990; Rutter, Taylor & Hersov, 1996).
Atualmente, de acordo com o DSM-IV-TR (Associação Psiquiátrica Americana [APA], 2002), os Transtornos Globais do Desenvolvimento incluem cinco categorias diagnósticas: Transtorno Autista, o Transtorno de Rett, Transtorno Desintegrativo da Infância, Transtorno de Asperger e Transtorno Invasivo do Desenvolvimento sem outra Especificação, sendo o autismo o transtorno prototípico desta categoria. Estes transtornos caracterizam-se pelo comprometimento severo e invasivo em três áreas do desenvolvimento: habilidades de interação social recíproca, habilidades de comunicação, e presença de comportamentos, interesses e atividades estereotipadas.
O comprometimento da interação social é caracterizado por alterações qualitativas das interações sociais recíprocas. Podem ser observadas dificuldades na espontaneidade, imitação e jogos sociais, bem como uma inabilidade em desenvolver amizade com seus companheiros; comprometimento acentuado no uso de comportamentos verbais e não-verbais, além da falta de reciprocidade social e emocional (Assumpção Jr., 1997; Bosa, 2002; Facion et al., 2002; Rutter et al., 1996). Quanto ao comprometimento das modalidades de comunicação, é relatado atraso na aquisição da fala, uso estereotipado e repetitivo da linguagem, inabilidade em iniciar e manter uma conversação, inversão pronominal, e ecolalia imediata e diferida (Assumpção Jr., 1995; Bosa, 2002; Rutter et al., 1996). O terceiro item da tríade de comportamentos refere-se aos padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses e atividades. Estes podem ser manifestados através da adesão inflexível a rotinas e rituais específicos, não funcionais, e pela preocupação persistente com partes de objetos, assim como insistência na mesmice e resistência frente a mudanças (APA, 2002).
As crianças com autismo, enquanto portadoras de uma condição crônica, enfrentam dificuldades importantes no que tange à realização de tarefas comuns, próprias a sua fase de desenvolvimento. Isto porque as características clínicas da síndrome afetam as condições físicas e mentais do indivíduo, aumentando a demanda por cuidados e, conseqüentemente, o nível de dependência de pais e/ou cuidadores. A família destas crianças, por sua vez, se vê frente ao desafio de ajustar seus planos e expectativas futuras às limitações da condição, além da necessidade intransponível de adaptar-se à intensa dedicação e prestação de cuidados das necessidades específicas do filho (Breslau & Davis, 1986; Bristol & Schopler, 1984; Gallagher, Beckman & Cross, 1983; Gath, 1977; Gauderer, 1997; Harris, 1983).
Vários estudos revelaram a existência de estresse agudo em famílias que possuem um membro com diagnóstico de autismo (Factor, Perry & Freeman, 1990; Perry, Sarlo-McGarvey & Factor, 1992). O estudo de Bristol e Schopler (1983) aponta, ainda, que os familiares de crianças com autismo apresentam padrões de estresse mais elevados do que famílias que possuem um filho saudável ou com síndrome de Down, sugerindo que o estresse pode ser influenciado por características específicas do autismo e não apenas por um comprometimento global do desenvolvimento. Estes dados podem ser complementados pelo estudo epidemiológico de Lecrubier, Boyer, Lépine e Weiller (2002) que encontrou altas taxas de depressão (68%) e ansiedade generalizada (28%), em cuidadores de crianças com autismo do oeste europeu e países em desenvolvimento, sendo que estas taxas foram relacionadas a importantes dificuldades sociais e à presença de eventos estressantes.
Milgram e Atzil (1988) estudaram os diferentes papéis desempenhados por pais e mães de crianças com autismo em Tel-Aviv. Os resultados demonstram que as mães tendem a apresentar maior risco de crise e estresse parental que os pais, devido à sua pesada tarefa com os cuidados maternos diretos. Conforme estes autores, existe uma expectativa social de que as mães tomem para si os cuidados da criança, assumindo-os mais do que os pais. Milgram e Atzil (1988) também descrevem o papel dos pais, que em contraposição às expectativas das mães, consideram justa sua menor participação nos cuidados gerais da criança, devido ao peso de suas responsabilidades financeiras e ocupacionais já desempenhadas junto à família. Porém, outros estudos revelam que estas responsabilidades tendem a acarretar tensão emocional e financeira significativas, conseqüentemente dificultando a contribuição destes para com os cuidados da criança (Bristol & Gallagher, 1986; DeMyer, 1979; Price-Bonham & Addison, 1978).
Coping
As emoções e a excitação fisiológica derivadas de situações estressantes são altamente desconfortáveis, motivando o indivíduo a fazer algo para seu alívio (Atkinsons, Atkinsons, Smith & Bem, 1995; Lazarus & Folkman, 1984). O conceito de coping tem sido descrito como o conjunto das estratégias utilizadas pelas pessoas para adaptarem-se a circunstâncias adversas ou estressantes, sendo revisado periodicamente (Antoniazzi, Dell'Aglio & Bandeira, 1998; Lazarus & Folkman, 1984). Estes autores identificam duas formas principais de coping: (a) focalizado no problema, incluindo estratégias de definição do problema, geração de soluções alternativas, comparação em termos de custos e benefícios, seleção e implementação da alternativa escolhida; (b) focalizado na emoção, que objetiva desenvolver ações para controlar o estado emocional, bem como impedir que as emoções negativas afetem o engajamento em ações para a solução de seus problemas. O uso de estratégias de coping focalizado no problema ou na emoção depende de uma avaliação da situação estressora na qual o sujeito encontra-se envolvido, refletindo ações, comportamentos ou pensamentos usados para lidar com o estressor (Folkman, Lazarus, Dunkell-Schetter, DeLongis & Gruen, 1986; Lazarus & Folkman, 1984).
Quanto à eficácia das estratégias empregadas pelo indivíduo durante os episódios de coping, Beresford (1994) afirma que embora a avaliação da eficácia ou da adaptabilidade das estratégias de coping tenha se mostrado extremamente subjetiva, em muitas pesquisas, coping deve ser visto como independente do seu resultado positivo ou negativo. Deste modo, determinada estratégia de coping não pode ser considerada como intrinsecamente boa ou má, adaptativa ou mal adaptativa, mas precisa ser avaliada a partir do contexto em ocorreu o episódio de estresse, das características do próprio evento e dos indivíduos envolvidos (Antoniazzi et al., 1998).
Tunali e Power (1993, 2002) também abordaram a questão do estresse e coping em pais de crianças com transtornos do desenvolvimento. Os autores compararam as respostas de entrevistas de mães de crianças com e sem autismo a respeito de uma série de tópicos, envolvendo suas vidas diárias. Os resultados apontaram para uma correlação positiva entre determinadas estratégias de coping e satisfação de vida, em mães de filhos com autismo. Por exemplo, as mães que apresentaram maior satisfação de vida foram aquelas que tendiam a depositar maior ênfase na importância de "ser uma boa mãe" do que na carreira profissional; a passar a maior parte de seu tempo de lazer com familiares; a depositar menor ênfase no lazer individual; maior ênfase nos papéis e suporte parentais do que na intimidade conjugal e lazer compartilhado; maior tolerância à ambigüidade, tanto em relação a seus filhos quanto no geral. Essa correlação foi negativa para mães de crianças sem autismo.
Um estudo desenvolvido por Judge (1998) objetivou determinar as estratégias de coping que são preditivas do fortalecimento familiar (family strengths) em famílias de jovens com transtornos do desenvolvimento. Foram investigados 69 pais, em sua maioria mães (88%), de crianças com transtornos do desenvolvimento, através do WOC (Ways of Coping Questionnaire) de Lazarus e Folkman (1984). Os três tipos de estratégias de coping mais utilizadas foram concentração na próxima etapa, aumento dos esforços para fazer as coisas funcionarem, e criar significados positivos para tornar a experiência melhor. Além disto, os esforços comportamentais para escapar ou evitar o problema mostraram-se negativamente relacionados ao fortalecimento familiar, enquanto os esforços de coping parental, direcionados à procura de apoio social, foram positivamente relacionados ao fortalecimento familiar. O estudo de Saloviita et al. (2003) identificou, através de análise de regressão, que um grupo de estratégias utilizadas por pais de filhos com atrasos no desenvolvimento, chamadas de estratégias de coping negativas (como culpar-se, apresentar pensamento mágico e evitação), exercem um papel preditivo importante para o estresse parental.
Considerando que existem pouquíssimas publicações sobre esta temática, especialmente no Brasil, torna-se importante investigar as estratégias utilizadas por mães de portadores de autismo para lidar com situações estressantes decorrentes das alterações de comportamento de seus filhos. O objetivo deste estudo, portanto, foi verificar as estratégias de coping maternas para lidar tanto com as dificuldades dos filhos com autismo, como com as próprias emoções desencadeadas por estes estressores.
 
Método
Participantes
Participaram deste estudo 30 mães com idades variando de 30 a 56 anos (M=45,37; DP=6,06), cujos filhos apresentam diagnóstico de autismo (DSM-IV-TR, 2002) e idades que variam de 12 a 30 anos (M=15,6 anos; DP=2,13). O diagnóstico de autismo foi considerado a partir dos protocolos disponibilizados pelas escolas. As mães foram recrutadas em clínicas e escolas públicas de educação especial de Porto Alegre e região metropolitana.
Instrumentos
Foram utilizadas uma ficha de dados de identificação e uma entrevista individual com as mães. A Ficha sobre Dados Demográficos e Dados sobre o Portador de TGD (Gomes, 2002) teve por objetivo coletar dados a respeito da família, diagnóstico do filho, tipo de tratamento recebido e características clínicas do portador de autismo.
A Entrevista sobre Dificuldades e Estratégias de Coping (Schmidt, 2004) consta de três questões abertas, investigando situações de dificuldades com os filhos; a forma como as mães lidam com estas dificuldades; e a forma como lidam com os próprios sentimentos decorrentes destas situações (Ex.: Aponte dificuldades nos cuidados diretos com o seu filho, o que faz nesse momento e o que faz para se sentir melhor). Cada mãe poderia apresentar de uma a três situações diferentes. Foram investigadas 71 situações apresentadas pelas mães.
Procedimentos e Considerações Éticas
Foram selecionadas seis clínicas e escolas públicas de educação especial de Porto Alegre e região metropolitana, por critério de conveniência. As mães participantes foram selecionadas, levando-se em consideração os critérios de idade da mãe e do filho, assim como o tipo de diagnóstico. Foi utilizado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para as participantes, de acordo com a resolução do Conselho Federal de Psicologia para pesquisas com seres humanos, informando-as quanto aos objetivos e procedimentos do estudo, e garantindo sigilo e confidencialidade dos dados. O projeto de pesquisa foi submetido à apreciação do Comitê de Ética da UFRGS e recebeu aprovação, sob o protocolo número 2003223.
A aplicação da ficha de identificação e a realização das entrevistas ocorreram individualmente com cada mãe, em suas residências. As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas de forma literal, para análise.
Análise dos Dados
Os dados das entrevistas foram examinados através da análise de conteúdo (Bardin, 1977/1979), gerando-se categorias descritivas dos aspectos investigados. A análise procurou extrair a significação dos conteúdos, através de procedimentos sistemáticos, exaustivos e objetivos, obedecendo aos critérios da análise de conteúdo quantitativo de modelo misto, no qual foram utilizadas categorias estabelecidas a priori (Ex.: busca de apoio, comportamento agressivo), citadas em estudos sobre coping (Dell'Aglio & Hutz, 2002), assim como categorias estabelecidas a partir dos conteúdos apresentados nas respostas das mães. Foram também observadas as distribuições de freqüência nas diferentes categorias, permitindo uma análise quantitativa.
Foram identificadas categorias para classificação das principais dificuldades apresentadas pelos portadores de autismo e categorias para descrever as estratégias de coping utilizadas pelas mães para lidarem com as dificuldades citadas. A partir do levantamento das categorias, foi realizada a classificação das respostas das situações analisadas. Após essa classificação, realizada através de consenso entre dois pesquisadores, houve mais uma avaliação de um juiz independente para o cálculo dos índices de concordância, tendo sido encontrado um índice de 77,8% de concordância para as estratégias de coping utilizadas frente às dificuldades dos filhos, 86,1% para as estratégias de coping para lidar com as próprias emoções e 82,2% para as dificuldades dos portadores de autismo.
 
Resultados
Descrição das Participantes
Os dados sociodemográficos das mães indicam que a maioria das participantes é casada (66,7%); 60% declarou não estar trabalhando; 36,7% possui o Ensino Fundamental, 53,3% Ensino Médio e 10% Educação Superior. Sobre o apoio recebido, 67% das mães referiu se sentir apoiada, sendo que a maior parte deste apoio é recebida na escola especial (53%). Quanto ao tipo de apoio percebido, 55% relatou receber apoio afetivo (Ex.: atendimento psicológico, grupos de pais), 35% apoio informativo (Ex.: informações sobre autismo, esclarecimento sobre funcionamento do filho) e 10% apoio financeiro (convênios da escola com outros serviços terapêuticos ou médicos). As mães referiram também receber orientações em relação ao manejo com seu filho (59%), assim como orientações para os cuidados consigo mesma (41%), tais como manejo dos conflitos pessoais, indicação para psicoterapia ou medicação. Foi observado, ainda, que a mãe é a principal responsável pela maioria dos cuidados (Ex.: alimentação, consultas médicas, vestir, medicação, etc.), arcando com 50,7% das obrigações para com o filho.
Os dados a respeito dos pais revelaram que a idade média foi de 48,47 anos (DP=7,20) e que, quanto à escolaridade, 56,7% dos pais possui ensino médio, seguido de 30% com curso superior. A média do número de irmãos do portador de autismo é de 1,33 (DP=0,88), sendo que 60% dos portadores de autismo são primogênitos ou segundo filho, 20% terceiro filho, 16,7% filho único e apenas 3,3% último filho.
Mais da metade dos portadores de autismo (56,7%) foi diagnosticado há mais de 10 anos, sendo a média de idade do filho na época do diagnóstico era de 5,33 anos (DP=3,07). A maioria deles é atendida em escolas especiais há mais de 10 anos e 30% recebe atendimento adicional por parte de um psiquiatra, há mais de dois anos. Observa-se que 96,7% consegue compreender instruções dadas por um familiar e alimenta-se sozinho; 86,7% apresenta comportamentos repetitivos, e 80% consegue expressar seus desejos. Sobre os cuidados pessoais, percebe-se que 53,3% realiza atividades de vida diária de modo independente (Ex.: veste-se, amarra seus sapatos, sai sozinho, faz a higiene). Mais da metade dos portadores de autismo (64,18%) apresenta algum comportamento disfuncional, como, por exemplo, comportamentos autolesivos ou repetitivos, agressividade e agitação.
Principais Dificuldades e Estratégias de Coping
No que se refere às principais dificuldades do portador de autismo, enfrentadas pelas mães, a análise de conteúdo permitiu gerar quatro categorias principais: Comunicação, Dificuldades em Atividades de Vida Diária (AVDs), Comportamento e Atrasos do Desenvolvimento, descritas a seguir. As freqüências e porcentagens de ocorrência destas dificuldades podem ser observadas na Tabela 1.
 
 
As categorias de classificação das dificuldades foram:
1. Comunicação: Refere-se a dificuldades da criança para se fazer compreender pelos outros, problemas na socialização e linguagem. Ex:
O problema é que ele não sabe como chegar direito nas pessoas e aí os outros estranham ele, sei lá o que pensam, ficam assustados ou com medo, não sei. Mas ele tem dificuldades de fazer amigos! É que ele tem aquele jeitinho dele de falar as coisas. . . (S4).
2. Dificuldades na Realização de Atividades de Vida Diária: Referem-se a atividades rotineiras e que fazem parte dos cuidados básicos, como por exemplo, tomar banho, escovar os dentes. Ex:
. . . Dar banho. Porque ele é bem maior que eu. Sabe? Eu dou banho, aquela coisa toda, mas ele quer sempre tomar banho dando a mangueirinha, o chuveirinho, só que é difícil... molha o chão do banheiro todo, aí é complicado. (S16).
3. Comportamento: Envolve a manifestação de comportamentos rígidos, agressivos, repetitivos, obsessivos ou agitação. Ex:
Agressividade! Tem horas que ele tá ótimo, aí de uma hora pra outra ele agride se tu não fizer as vontades dele. Tem um cronograma que ele quer que as coisas aconteçam, o que é bem característico do autismo. Se tu não consegues fazer aquilo, ele vem e quebra as coisas. (S27).
4. Atrasos do Desenvolvimento: Refere-se a dificuldades de controle esfincteriano (enurese, encoprese) ou deficiência mental. Ex: "Controlar os esfinceteres, né. É um problema, durante o dia a gente bota ela no banheiro de tempos em tempos, e de noite a gente põe a fralda nela... A gente criou mais ou menos uma rotina" (S19).
Observa-se que mais da metade das mães relataram como principal dificuldade o comportamento do filho (63,4%), seguida de 26,8% de dificuldades para a realização das Atividades de Vida Diária (AVD's).
Quanto às estratégias de coping utilizadas pelas mães, frente às dificuldades apresentadas por seus filhos e para lidar com a emoção decorrente destas situações, foram identificadas nove categorias, descritas a seguir:
1. Ação Agressiva: Refere-se a respostas físicas, motoras ou verbais que podem causar danos ou violentar psicologicamente seu filho. Pode ser uma agressão física, verbal, uso de ameaça ou manifestação de raiva ou ataque. Ex: "Eu me ataco, saio da real e acabo batendo nela", ". . . digo pra ele: Tu vai tomar uma injeção!", "Eu dou uns tapas nela."
2. Evitação: Este tipo de estratégia inclui tentativas cognitivas ou comportamentais que levam o indivíduo a se afastar da situação de estresse. É uma tentativa deliberada de manter-se longe do estressor ou de cognitivamente evitar saber da existência do estressor. Inclui fugir da situação, ir para outro lugar, procurar esquecer, ir dormir, tentar escapar, afastar-se das pessoas envolvidas, não pensar sobre o problema. Ex: "Eu largo ele, deixo de fazer o que estou fazendo com ele e vou pro meu canto."
3. Distração: Envolve comportamentos ou pensamentos que adiam a necessidade de lidar com o estressor, tal como fazer outra coisa, desenvolver uma atividade diferente, jogar, assistir TV, ouvir música, ler. Ex.: "Saio, dou uma volta, fumo o meu cigarro. Tenho que arejar!", "Eu me distraio com outras coisas e espero passar. A vida continua."
4. Busca de Apoio Social/Religioso: Comportamento que envolve a busca de apoio de uma pessoa (marido, filho, vizinho ou pessoa próxima) ou apoio religioso (rezar, pedir a Deus) como auxílio no enfrentamento da situação estressora. Ex.: "Nessa hora eu peço assim ó: Senhor, dai-me paciência, força.", "Ah, eu tenho um médico fora de série, que volta e meia eu vô nele, me dá uns Diazepan", "Eu converso com os outros, a troca de experiências com outras mães é importante."
5. Ação Direta: Comportamento que age diretamente sobre o estressor ou modifica suas características. Quando a pessoa faz ou propõe algo para alterar a situação, tenta resolver o conflito diretamente, enfrentando-o ou tentando solucionar a situação de alguma forma. Ex: "Eu converso com ele", "eu explico o que ele está querendo pro amiguinho dele, tento mediar a situação", "Eu seguro e falo rígido com ele."
6. Inação: Refere-se ao comportamento de ficar parado, bloquear-se ou não tomar iniciativa nenhuma, esperar passar. Ex.: "Nada. Eu fico esperando a minha frustração passar", "Eu vou pro meu canto e espero passar. Não tem o que fazer", "Eu sigo adiante, empurro com a barriga."
7. Aceitação: Envolve situações em que a pessoa aceita passivamente a situação, submetendo-se às exigências do estressor. Ex.: "Sim, tem que dar o banho. Não tenho saída, tem que dar, tem que dar!", "Aquela é a minha obrigação de mãe, tenho que fazer."
8. Expressão Emocional: Resposta ao estressor manifestando o estado emocional ligado ao evento, como, por exemplo, chorar, gritar, ficar triste ou brava (mas não com alguém). Ex.: "Fico triste, né doutor", "Normalmente eu choro, pra poder me aliviar.", "Só chorar ajuda, eu choro e depois retorno à lida."
9. Reavaliação/Planejamento Cognitivo: Envolve esforços cognitivos para criar novos significados sobre o problema enfrentado, pensar em novas formas de resolvê-lo e/ou compreendê-lo de um outro ponto de vista, redefinindo o próprio estressor. Ex.: "Seria pior se ele fosse cegou ou surdo", "penso que ela é um nenê", "penso no que seria melhor", "Eu acho que tem coisas muito piores, né."
As freqüências e porcentagens das estratégias de coping utilizadas pelas mães, frente à dificuldade apresentada pelo seu filho, podem ser observadas na Tabela 2. A maioria das mães (68,6%) utilizou a estratégia de Ação Direta, para lidar com as dificuldades de seu filho, enquanto a estratégia de Aceitação apareceu em segundo lugar, em 11,4% da amostra. As estratégias menos utilizadas, nestas situações, foram a de Expressão Emocional e Distração.
 
 
Também foram analisadas as respostas das mães, referentes às estratégias utilizadas para se sentirem melhor frente às situações vivenciadas com seus filhos, ou seja, frente às emoções desencadeadas pelos eventos. Os dados relativos a estas respostas são apresentados na Tabela 3.
 
 
Quanto às estratégias de coping para lidar com as emoções decorrentes do estressor, observa-se que as categorias mais freqüentes foram Distração (25,4%), Busca de Apoio Social/Religioso (18,6%), Inação (15,2%) e Evitação (13,5%). As menos freqüentes foram as estratégias de Ação Agressiva e Ação Direta, ambas com somente uma resposta.
 
Discussão
Os dados deste estudo indicaram as principais dificuldades enfrentadas pelas mães de portadores de autismo, nos cuidados de seu filho, tendo se destacado os problemas de comportamento e as dificuldades com atividades de vida diária, como por exemplo vestir-se, fazer a higiene, sair sozinho. Estes resultados confirmam estudos que apontam estas dificuldades como fazendo parte do quadro diagnóstico do autismo, inclusive contribuindo para a elevação dos níveis de estresse materno (Bebko, Konstantareas & Springer, 1987; Koegel et al., 1992; Konstantareas & Homatidis, 1989; Quine & Pahl, 1985; Sloper, Knussen, Turner & Cunninghan, 1991; Weiss, 1991).
Quanto às estratégias de coping utilizadas pelas mães para lidarem com as dificuldades de seus filhos, os resultados indicaram que a maioria das participantes faz uso de ação direta, ou seja, busca agir diretamente sobre o estressor, buscando modificar suas características. Observa-se que as mães agem de forma objetiva e prática, tomando iniciativas para resolver os problemas e demonstrando capacidade de manejo para lidar com seus filhos diante das circunstâncias estressoras surgidas no dia a dia, seja no convívio familiar ou no ambiente social mais amplo. Os dados levantados na entrevista apontaram que estas mães, em sua maioria, recebem apoio e orientação das escolas especiais, principalmente sobre o manejo com os filhos, o que talvez possa estar favorecendo uma maior utilização da estratégia de ação direta. Sivberg (2002) verificou que os esforços de coping parental direcionados à procura de apoio social se encontram positivamente correlacionados ao fortalecimento familiar, o que favorece o uso de estratégias de coping mais efetivas no manejo do estresse.
Por outro lado, a estratégia mais utilizada para lidar com as próprias emoções, decorrentes das dificuldades enfrentadas com seus filhos, foi a distração, ou seja, as mães evitam lidar diretamente com o problema, normalmente dirigindo-se para outra atividade. Dessa forma, observa-se que as mães procuram desenvolver atividades alternativas, como ler, conversar, ver televisão, para, assim, poder desligar-se do foco estressor. Este tipo de estratégia é semelhante à estratégia de evitação, que também foi apresentada pelas mães nestas situações, quando elas procuram evitar pensar sobre o problema. A utilização das estratégias de distração e de evitação, embora em geral sejam compreendidas como desadadaptativas em adultos, também foram observadas no comportamento de mães de portadores de autismo nos estudos de Ellis e Hirsch (2000), Hastings e Brown (2002) e Sivberg (2002). Ainda de acordo com alguns autores (Kliewer, 1991; Losoya, Eisenberg & Fabes, 1998), a estratégia de evitação pode se constituir numa forma construtiva de lidar com a situação de estresse, afastando-se do problema ou engajando-se em outra atividade, prevenindo assim que a situação de conflito se agrave, e refletindo uma tentativa de manter o controle sobre a situação.
As dificuldades comportamentais apresentadas por portadores de autismo, tais como agitação psicomotora, gritos ou agressividade, são de difícil manejo, dadas as especificidades de sua natureza e a complexidade de sua etiologia. Quando surgidas em um contexto social, como por exemplo, em locais públicos, torna-se inevitável o constrangimento dos cuidadores pelo uso de uma intervenção mais diretiva (Ex.: contenção física, retirada). Os dados mostraram que, frente a estas dificuldades, as mães vêem-se obrigadas a tomar uma atitude objetiva, prática e direta para eliminar ou diminuir a intensidade do estressor, agindo diretamente sobre estes. Tomadas as providências emergenciais, referentes ao controle da criança e seu comportamento, surgem intensos sentimentos decorrentes destas ações, frente às quais as mães agem utilizando a distração, evitando pensar no problema, sem manifestar nenhuma ação ou buscando o apoio de alguém ou religioso.
Este resultado é corroborado pelo estudo de Ellis e Hirsch (2000), o qual refere que familiares que possuem um membro com autismo têm dificuldades em cumprir suas demandas de vida diária, recorrendo a estratégias de coping consideradas menos adaptativas, tais como a evitação. O estudo de Sivberg (2002), que explorou as diferenças entre o sistema familiar e as estratégias de coping utilizadas pelos pais de filhos com desenvolvimento típico (DT) e pais de filhos com autismo, também apontou que as estratégias mais utilizadas pelos pais de portadores de autismo foram afastamento e evitação, enquanto o grupo de DT mostrou maior freqüência no uso das estratégias de busca de suporte social e resolução de problemas.
No estudo de Hastings e Brown (2002), foi observado que as estratégias utilizadas pelos pais de autistas, em oposição ao grupo com DT, se caracterizam por lidarem com o estressor através de seu afastamento. Segundo estes autores, este fenômeno ocorre como uma reação à intensa tensão intrafamiliar, decorrente das dificuldades relacionadas ao convívio diário com o portador de autismo, dada a correlação positiva encontrada para estes entre tensão nas relações familiares e uso da estratégia de evitação. De acordo com o presente estudo, podemos pensar que as estratégias de evitação e distração, utilizadas pelas mães participantes, embora sejam racionais e funcionais em algumas situações, podem estar sendo usadas de modo não funcional, possivelmente devido à baixa qualidade do suporte social percebido. O uso destas estratégias também pode afetar a capacidade de planejar os cuidados futuros como, por exemplo, providenciar tutela, fazer poupança e planos de saúde, conhecer os direitos dos portadores (Ex.: aposentadoria) e procurar recursos na comunidade. Deste modo, podemos concluir que as estratégias de evitação e distração, identificadas no presente estudo, tendem a ser utilizadas de forma não funcional, possivelmente afetando as relações entre os membros da família. No entanto, conforme Cohen e Volkmar (1997), o fato de determinada estratégia de coping ser eficaz em um momento e não em outro, dependerá da situação vivenciada, envolvendo características dos pais, a especificidade das necessidades do filho e sua idade.
É importante destacar-se que as estratégias de coping também são influenciadas pelos recursos de coping disponíveis, sendo que Beresford (1994) aponta as crenças das mães como fatores importantes nesse processo. As crenças religiosas também são citadas como fatores que influenciam a adaptação das famílias, pois oferecem a oportunidade de redefinir o significado dos problemas dos seus filhos. Apesar da análise de conteúdo não ter identificado crenças diretamente relacionadas à religião, percebeu-se que este recurso se encontra implicitamente expresso em grande parte das mães através da estratégia de coping de busca de apoio social/religioso, aparecendo também em alguns depoimentos a respeito das crenças sobre a etiologia do autismo, como nos seguintes exemplos:
"Acho que isso são uns presentes que Deus dá. Uns são sorteados, e eu fui uma delas e aceitei" (S23).
"Acho que eu fui escolhida. Dizem que Deus nunca dá uma cruz maior que os ombros da gente, né. Então se me veio ele assim é porque eu posso, eu tenho que conseguir criar" (S18).
"Ah, nessa hora eu peço assim ó, ergo as mãos e peço assim: Senhor, dai-me paciência, força!" (S10).
Estes resultados também foram encontrados em vários estudos sobre crenças de mães de filhos portadores de enfermidade crônica, sendo considerado como um recurso importante que permite aos pais gerarem suas próprias expectativas para os eventos futuros ao longo das prestações de cuidados ao filho (Barbarian, Hughes & Chesler, 1985; Fewell, 1986; Libow, 1989; Venters, 1981). Deste modo, podemos compreender que a busca de apoio social/religioso, adicionada ao bom nível de suporte formal e institucional percebidos, exerce uma importante função de suporte.
 
Considerações Finais
Os dados encontrados são importantes, pois possibilitam uma melhor compreensão das estratégias utilizadas pelas mães de portadores de autismo. A identificação do tipo de estratégia mais utilizada por esta população, frente a determinado problema ou dificuldade do filho, permite aos técnicos e profissionais, que trabalham junto a famílias com um membro portador de autismo, um entendimento a respeito da forma como estas lidam com o estresse, dando subsídios para um trabalho de orientação e acompanhamento mais direcionado.
Os resultados também indicam a importância do apoio a estas mães, assim como uma orientação no sentido de que elas possam lidar mais diretamente com os sentimentos decorrentes das situações vivenciadas. A partir da observação de que estas mães conseguem lidar de forma direta com as dificuldades de seus filhos, mas não com as próprias emoções, sugere-se a implementação de grupos de apoio e orientação, focalizados nas estratégias de enfrentamento. O fortalecimento de estratégias que tragam resultados mais efetivos pode auxiliar no alívio do estresse materno, contribuindo para uma melhor qualidade de vida nestas famílias e para a ocorrência de processos mais adaptativos ao longo do desenvolvimento de seus filhos.
 
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* Este trabalho foi baseado nos dados da dissertação de mestrado do primeiro autor, apresentada em 2004 no Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento/Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e foi realizado com auxílio financeiro da CAPES em forma de bolsa concedida ao primeiro autor.
** Endereço para correspondência: Instituto de Psicologia, UFRGS, Ramiro Barcelos, 2600, Porto Alegre, RS, 90035-003. Fone: (51) 3308-5246; Fax: (51)3308-5473.
1 Optou-se por não traduzir o termo coping devido à inexistência, em português, de uma palavra capaz de expressar os significados associados ao termo original. Possíveis significados da palavra coping em português encontram-se relacionados à: "lidar com", "enfrentar" ou "adaptar-se a".

Interação professor-aluno com autismo

Revista Brasileira de Educação Especial
Rev. bras. educ. espec. vol.14 no.3 Marília Sept./Dec. 2008
 
RELATO DE PESQUISA
 
Interação professor-aluno com autismo no contexto da educação inclusiva: análise do padrão de mediação do professor com base na teoria da Experiência de Aprendizagem Mediada (Mediated Learning Experience Theory)
 
Interaction between teacher and student with autism within the inclusive education context: analysis of teacher mediation patterns based on the Mediated Learning Experience theory
 
 
Iara Maria de FariasI; Renata Veloso de Albuquerque MaranhãoII; Ana Cristina Barros da CunhaIII.
IPsicóloga, Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ - Instituto de Psicologia - Departamento de Psicologia Clínica - Rio de Janeiro / RJ - Brasil - acbcunha@yahoo.com.br
IIPsicóloga, Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ - Departamento de Psicologia Clínica - Rio de Janeiro / RJ - Brasil - iarapsiufrj@gmail.com
IIIProfessora Doutora do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ - Rio de Janeiro/RJ - Brasil - rmaranhao.23@gmail.com
 
 

RESUMO
A inclusão da criança com deficiência tem sido discutida em uma diversidade de contextos e a escola é o melhor local para promover a inclusão social e educacional dessas crianças, onde a relação professor-aluno é muito importante. Com referência na Teoria da Experiência de Aprendizagem Mediada, o objetivo deste estudo foi discutir sobre a prática profissional de duas professoras e suas crianças com autismo em classes de educação infantil. Foram feitas entrevistas com as duas professoras e foi utilizada a Escala de avaliação da Experiência de Aprendizagem Mediada para avaliar o padrão de interação professor-aluno. As concepções sobre inclusão foram diferentes para ambas as professoras. O padrão de mediação de ambas as professoras apresentou diferenças nos principais componentes de mediação: Intencionalidade, Significação e Transcendência. A professora Marta apresentou baixos níveis (nível 1) para todos esses componentes de mediação mencionados, enquanto que a outra professora, Carmem, apresentou níveis 3 de mediação em Intencionalidade, por exemplo. Conclui-se que a professora Marta apresenta comportamentos que não favorecem a modificabilidade cognitiva estrutural da criança. Nessa direção, a escola deve ser capaz de qualificar o professor para promover e a inclusão social e educacional e o desenvolvimento infantil.
PALAVRAS-CHAVE: inclusão educacional; interação professor-aluno; mediação; educação especial.

ABSTRACT
The inclusion of children with special needs has been discussed in many contexts and the school is the best place to promote children's social and educational inclusion, wherein teacher-child interaction is of great importance. Based on the approach known as the Mediated Learning Experience Theory, the aim of this study was to discuss the professional practices of two teachers (Marta and Carmen) and their students with autism in pre-school classrooms. Data was collected through interviews with both teachers and the Mediated Learning Experience Rate Scale (MLE Rate Scale) was applied to assess teacher-child interaction. Conceptions of inclusion were different for both teachers. The teacher's pattern of mediated learning experience was different for the main mediation components: Intentionality, Meaning and Transcendence. Marta showed very low levels (level 1) in all mediation components while Carmen, the other teacher, presented level 3 in Intentionality, for example. Concluding, Marta didn't present interaction behaviors that promote structured cognitive modifiability of her student with autism. To this end, the school must enable the teacher to promote social and educational inclusion to further child development.
KEYWORDS: educational inclusion; teacher-student interaction; mediation; special education

 
 
1 Introdução
Atualmente, a questão da inclusão das pessoas com deficiências ou necessidades educativas especiais tem sido amplamente discutida no contexto social e educacional, em que surgem mecanismos para regulamentação do processo de inclusão que garantam a igualdade de direitos destas pessoas. Um dos exemplos disso é a elaboração de documentos que discutem a questão da deficiência e, dentre eles, destacam-se a Declaração de Salamanca (BRASIL, 1994) e, mais recentemente, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006).
No âmbito nacional, o principal mecanismo de luta por uma educação inclusiva, tanto no âmbito da educação pública quanto privada, é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº. 9394 de 20 de dezembro de 1996 (BRASIL, 1996), que define no capítulo V que a educação para alunos com deficiência que deve ser oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, assegurando aos mesmos, currículo, métodos, técnicas, recursos educativos específicos para atender às suas necessidades, dentre outros.
Dessa forma, deve-se concluir que em pleno século XXI não deveríamos mais estar discutindo sobre a inclusão de indivíduos com deficiência. A inclusão deve ser instituída como uma forma de inserção radical, completa e sistemática, em que as escolas devem se propor a adequar seus sistemas educacionais as necessidades especiais da clientela de alunos, todos os alunos, não se restringido somente aos alunos com deficiência. Assim, de acordo com Alves (2002), uma educação inclusiva pressupõe a educação para todos, não só do ponto de vista da quantidade, mas também da qualidade. O que significa que os alunos devem se apropriar tanto dos conhecimentos disponíveis no mundo quanto das formas e das possibilidades de novas produções para uma inserção criativa no mundo.
Nessa perspectiva, a escola inclusiva deve estar disposta a adaptar seu currículo e seu ambiente físico às necessidades de todos os alunos, propondo-se a realizar uma mudança de paradigma dentro do próprio contexto educacional com vistas a atingir a sociedade como um todo. Neste espaço, a relação professor-aluno com deficiência deve influenciar a auto-imagem desse aluno e o modo como os demais o vêem, trazendo benefícios tanto para ele quanto para o seu grupo com base em um suporte que facilite a todos obter sucesso no processo educacional. Dessa forma, a escola para ser considerada inclusiva deve promover as possibilidades e potencialidades de todo e qualquer sujeito, sobretudo aquele com deficiência.
Especificamente, ao se discutir a inclusão educacional de crianças com autismo, alguns aspectos relevantes devem ser considerados. De acordo com o DSM-IV, o autismo ou transtorno autista deve ocorrer antes dos 3 anos de idade e é classificado como um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento em que o indivíduo apresenta prejuízo qualitativo na interação social e na comunicação, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades (indiferença ou aversão à afeição ou contato físico, falta de contato visual direto, de respostas faciais, de sorrisos sociais, etc.) (DORNELES, 2002).
De acordo com Bosa (2006), o planejamento do atendimento à criança com autismo deve ser estruturado de acordo com o desenvolvimento dela. Por exemplo, em crianças pequenas as prioridades devem ser a fala, a interação social/linguagem e a educação, entre outros, que podem ser considerados ferramentas importantes para promoção da inclusão da criança com autismo. Além disso, como afirma Kupfer (2004), deve-se promover uma mudança na representação social sobre a criança com autismo, sendo importante que a escola e o professor baseiem sua prática a partir da compreensão dos diferentes aspectos relacionados a este tipo de transtorno, além de suas características e as conseqüências para o desenvolvimento infantil.
Atualmente existe um movimento natural de reinserção dessas crianças em escolas regulares e cada vez mais a escola deve se adequar para proporcionar à criança com autismo habilidades sociais que melhorem seu desempenho no âmbito educacional, social e ocupacional (Stainback; Stainback, 1999). Assim, Kupfer (2004) ressalta a importância da inclusão educacional, como principal instrumento de inserção social e objetivo de todo e qualquer tratamento para a criança com transtorno autista.
Com efeito, a inclusão escolar é um fator diferencial no desenvolvimento de pessoas com transtornos globais do desenvolvimento; contudo, experiências de sucesso no processo educacional para autistas ainda são pouco observadas, haja vista a ausência e precariedade de serviços de atendimento aos indivíduos com autismo, principalmente no que se refere à esfera educacional (OLIVEIRA, 2002; VASQUES, 2002 apud BRIDI; FORTES; BRIDI FILHO, 2006)
No entanto, o que se observa ainda é que existem obstáculos referentes à inclusão educacional do aluno com autismo, seja em classe regular ou mesmo em classe especial, devido ao fato de muitos profissionais, de acordo com Bridi, Fortes e Bridi Filho (2006), experimentarem certo "medo" de atuar com o sujeito com autismo, quer seja pelo desconhecimento sobre a condição autista em si ou por defrontarem-se diariamente com a possibilidade de não obterem respostas diante de uma intervenção pedagógica com tal aluno.
Não obstante, deve-se considerar o professor como um adulto importante e mais experiente que tem papel fundamental no desenvolvimento da criança, sobretudo aquela com autismo, visto que pode facilitar a apreensão por ela dos diferentes aspectos do contexto onde ela está inserida. Para subsidiar esta discussão, destacam-se alguns enfoques teóricos da Psicologia que oferecem subsídios para compreensão do papel do adulto, o professor, por exemplo, na promoção do desenvolvimento infantil.
Com base na abordagem sócio-interacionista de Vygotsky, mais especificamente conceitos como a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)1 e o conceito de Aprendizagem Mediada (VYGOTSKY, 1993/1967), as teorias da Modificabilidade Cognitiva Estrutural (MCE) e da Experiência de Aprendizagem Mediada (EAM), ambas de R. Feuerstein, entendem que o desenvolvimento humano é resultado das interações estabelecida entre os indivíduos durante sua vida em ambientes sociais, especialmente organizados para promover esse desenvolvimento.
Com base em tais pressupostos, Feuerstein apresenta um modelo teórico que integra diferentes conceitos e propõe um sistema de compreensão das características necessárias para que o ambiente social seja capaz de promover o desenvolvimento humano (FEUERSTEIN; FEUERSTEIN, 1991; CUNHA 2003; CUNHA, 2004; CUNHA; ENUMO; CANAL, 2006). A abordagem teórica de Feuerstein tem como principal premissa a hipótese de que o desenvolvimento cognitivo é caracterizado pela aquisição de funções cognitivas por meio da aprendizagem, que ocorrem tanto pela exposição direta, quanto, por situações de Experiência de Aprendizagem Mediada (EAM) (FEUERSTEIN; FEUERSTEIN, 1991).
Dessa forma, a EAM é um processo de aprendizagem que ocorre quando uma pessoa interpreta o estimulo ambiental, chama a atenção do outro para os seus aspectos cruciais, atribui significado à informação recebida e transcende a mesma para aprendizagem de regras e princípios que podem ser aplicados a novas aprendizagens, tornando o estímulo ambiental relevante e significativo, o que favorece o desenvolvimento do outro (FONSECA; CUNHA, 2003; CUNHA, 2004) e, assim, auxilia a criança a alcançar a ZDP e atingir competência cognitiva e social.
Neste contexto, para melhor compreender a importância do professor no desenvolvimento e inclusão da criança com deficiência, principalmente aquela que tem autismo, pode-se adotar o conceito de ZDP, entendida como um domínio de constante transformação a partir do amadurecimento de funções cognitivas que futuramente serão consolidadas (OLIVEIRA, 1997). Dessa forma, para que o aluno obtenha sucesso em seu desempenho, o professor deve reconhecer seu nível de desenvolvimento intelectual proximal para, então, conduzi-lo a estágios ainda não alcançados, fazendo com que ele atinja níveis mais avançados de desenvolvimento real.
Embora o desenvolvimento cognitivo seja resultado dos dois modelos de interação indivíduo-ambiente, a interação baseada em EAM é a que mais afeta o desenvolvimento cognitivo estrutural da criança. A qualidade da interação é representada pela quantidade de EAM e depende do contexto em que ocorre. De tal modo, a interação professor-aluno é entendida como um processo de mão-dupla interativa, no qual o mediador deve envolver o mediado em atividades de resolução de problemas com objetivo de auxiliá-lo a enfrentar as tarefas/problemas com eficácia e enriquecer os comportamentos visando à autonomia do aluno em atividades futuras.
Para tanto, para que o professor promova o desenvolvimento cognitivo e, conseqüentemente, a modificabilidade cognitiva estrutural do aluno, a interação deve seguir alguns princípios ou critérios básicos, a fim de ser considerada como uma situação de EAM. De acordo com Tzuriel (1999, 2001), Klein (1996) e Feuerstein e Feuerstein (1991), podem ser indicados pelos menos três componentes de mediação principais: a intencionalidade, a significação e a transcendência (grifo do autor). Importante destacar que estes critérios de mediação são considerados indispensáveis, porém existem outros nove critérios de mediação, que serão apresentados mais adiante, igualmente importantes e que devem estar presentes qualquer interação mediada.
A intencionalidade ocorre quando um mediador intencionalmente chama a atenção da criança para um objeto e ela responde a este estímulo, sendo um elemento fundamental no processo de aprendizagem mediada, uma vez que cria na criança um estado de alerta e desenvolve nela a capacidade de realizar um registro eficiente das informações e um processamento mental adequado, além de apresentar uma resposta eficiente (TZURIEL, 1999). Já a significação se refere ao comportamento do mediador em enfatizar a importância de um estímulo, por meio da expressão de afeto e pela indicação do valor e significado do mesmo, quando a criança aprende o significado dos estímulos em uma situação de aprendizagem mediada e internaliza este processo, passando, mais tarde, espontaneamente, a buscar o significado de novas informações. Por fim, a transcendência que diz respeito à generalização da aprendizagem de regras, estratégias e princípios, se refere à atitude do mediador em conduzir a criança para além de contextos concretos com objetivo dela transferir a aprendizagem de princípios gerais e objetivos para situações e/ou contexto específicos (CUNHA, 2003; CUNHA, 2004).
Discutindo a aplicação desta perspectiva teórica no estudo do autismo, Orrú (2003) considera que, devido à complexidade do quadro clínico, a criança com autismo tende a não se beneficiar de uma aprendizagem por meio de exposição direta a estímulos diversos, que não contribuem para sua formação psicossocial e desenvolvimento de suas estruturas cognitivas. Logo, quando a criança com autismo é exposta a estímulos sem a devida intervenção do professor, pode se tornar estressada por causa da saturação de informações que podem lhe parecer sem função, já que ela pode até registrar os estímulos e interagir com os mesmos, mas sem, contudo, ocorrer modificações em seu processo cognitivo, o que resultará em uma aprendizagem insuficiente em termos de modelos mais complexos de desenvolvimento cognitivo.
Ao contrário, em uma situação de EAM, a criança com autismo poderá alcançar níveis de desenvolvimento, hierarquização e complexidade cognitiva por meio da atuação do mediador, que deverá intervir entre os estímulos e a própria criança, a partir do uso da intencionalidade, possibilitando, assim, a adequação dos diversos aspectos envolvidos na situação de aprendizagem às necessidades de transformação das estruturas cognitivas da criança (ORRÚ, 2003).
Ainda, sob a perspectiva da teoria da EAM e com objetivo de verificar o quanto o professor de educação inclusiva está preparado para receber esta "nova" demanda e contribuir para o desenvolvimento e inclusão do aluno com deficiência, podem ser adotados modelos para a avaliação e análise do nível de EAM presente na interação adulto-criança. Dentre estes se destaca a Mediated Learning Experience Rate Scale - MLE Scale (Escala de Avaliação da Experiência de Aprendizagem Mediada-Escala EAM) de C. S. Lidz (1991), que se apresenta como uma tentativa de calcular as experiências ambientais e de socialização que têm potencial influência no desenvolvimento cognitivo da criança (CUNHA; ENUMO; CANAL, 2006).
A Escala EAM foi elaborada com o objetivo de operacionalizar os critérios de EAM decorrentes dos trabalhos de Feuerstein e colaboradores (1987) e inclui a maior parte dos componentes descritos por ele, além de modificações decorrentes de pesquisas acerca da interação pais-criança. A escala propõe 12 componentes do comportamento do mediador que são analisados em termos de potenciais atitudes de mediação da aprendizagem (LIDZ, 1991; CUNHA, 2003; 2004; CUNHA; ENUMO; CANAL, 2006), a saber: 1) Intencionalidade (intentionality); 2) Significação (meaning); 3) Transcendência (transcendence); 4) Atenção partilhada (joint regard); 5) Experiência partilhada (sharing of experiences); 6) Regulação na tarefa (task regulation); 7) Elogiar (praise/encouragement); 8) Desafiar (challenge); 9) Diferenciação psicológica (psychological differentiation); 10) Responsividade contingente (contingent responsivity);11) Envolvimento afetivo (affective involvement); e 12) Mudança (challenge)2.
Quanto à análise dos resultados da Escala, cada um dos componentes é avaliado a partir de quatro níveis, que variam do nível zero (ausência de mediação) até o nível três (nível ótimo de mediação). O nível ótimo de mediação diz respeito aos resultados esperados do comportamento do mediador que promova um funcionamento cognitivo apropriado. Esses níveis são determinados de acordo com a definição de Lidz (1991) sobre as atitudes adequadas do mediador em proporcionar à criança situações de interação baseadas em EAM.
A Escala EAM pode ser aplicada na observação direta da situação de interação entre o mediador e a criança, com diferentes características e em diferentes situações (LIDZ; BOND; DISSINGER, 1990; ZAMBRANA-ORTIZ; LIDZ, 1995) e é Canal (2006) usaram uma proposta de operacionalização da Escala EAM, feita por Cunha (2004), em pesquisa cujo objetivo foi analisar se procedimentos de avaliação cognitiva assistida, quando comparados ao tradicional, influenciavam o padrão de mediação adotado por mães de crianças com deficiência visual em situação de jogos de dominó.
Pesquisas comprovam que a Escala EAM oferece diretrizes claras, concretas e específicas para auxiliar na recomendação e elaboração de planos de intervenção, baseados na observação da interação entre adulto-criança. Logo, a Escala EAM pode ajudar a reconhecer as variáveis e acompanhar as mudanças ocorridas no padrão de interação adulto-criança, além de descrever os componentes interacionais necessários para promoção do desenvolvimento cognitivo e afetivo com vistas a desenvolver no adulto uma visão mais positiva que sirva como suporte para a criança, especialmente quando ela tem deficiências.
Com base na teoria da EAM e nos estudos acima mencionados, a proposta principal do presente trabalho foi verificar o preparo de professores de educação inclusiva para promoção do desenvolvimento cognitivo de crianças autistas em idade pré-escolar, utilizando a Escala de Avaliação da Experiência de Aprendizagem Mediada (Mediated Learning Experience Rate Scale - MLE Scale), operacionalizada por Cunha (2004). Além disso, foram investigadas concepções acerca da inclusão destes professores, assim como o apoio recebido por eles para realização de sua prática pedagógica no contexto de uma escola considerada inclusiva.
 
2 Método
2.1 Participantes
Participaram do estudo duas crianças com deficiência (autismo) com média de 3 anos de idade e duas professoras, com média de idade de 35 anos e com tempo médio de 14 anos de experiência profissional como educadoras. A professora Carmem3 lecionava na turma A, com 8 alunos (meninos: n=04; meninas: n= 04) e contava com a colaboração de uma auxiliar; enquanto a professora Marta4 lecionava na turma B que tinha 21 alunos (meninos: n=13; meninas: n= 08) e contava com a colaboração de duas auxiliares de turma e um facilitador5, que era responsável exclusivamente pela criança com autismo. Ambas as professoras trabalhavam em classe de educação infantil para crianças entre 2 e 4 anos de idade e tinham apenas uma criança com deficiência (autismo) matriculada em sua turma.
As crianças participantes de ambas as turmas eram classificadas de acordo com o DSM -IV como portadoras de Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (autismo), segundo diagnóstico médico disponível na escola. Ambas apresentavam características de desenvolvimento semelhantes que resultavam em prejuízo na interação social recíproca, já que não demonstravam habilidades de comunicação, como, por exemplo, linguagem falada ou mesmo contato visual direto com demonstração clara de emoções por meio da expressão facial. Igualmente, ambas as crianças demonstravam não ter habilidades sócio-afetivas de interação com adultos e crianças, freqüentemente preferindo atividades solitárias e apresentando freqüentemente comportamentos estereotipados, tais como abanar as mãos. Os demais alunos das turmas não apresentavam diagnóstico formal de deficiência.
2.2 Local
O estudo foi realizado em uma instituição de educação infantil da rede particular de ensino do Município do Rio de Janeiro. Com cerca de 39 anos de fundação, a instituição, localizada na Zona Sul da cidade, oferece classes da educação infantil ao ensino médio e é conhecida como uma instituição de educação inclusiva.
Os dados foram coletados durante diferentes atividades realizadas na própria sala de aula de cada turma, na área externa, na biblioteca e no refeitório da escola. As salas de aula das turmas A e B eram salas tradicionais com quadro para giz ou de metal, prateleira com livros e/ou jogos, armário para guardar materiais, mesa com cadeiras; além disso, tinham espelho, tapete, almofadas e ganchos para pendurar as mochilas. A área externa da escola dividia-se em dois pátios, um coberto com brinquedos de plástico (escorregador e túnel), e o outro ao ar livre com árvores e bancos. A biblioteca ficava no segundo andar e tinha prateleiras de diversos tamanhos com uma coleção variada de livros, além de um tapete e almofadas. O refeitório era pequeno, não comportando um grande número de crianças, possuía uma mesa retangular comprida com cadeiras compatíveis ao tamanho das crianças e uma bancada com pia.
2.3 Material e instrumentos
Para a entrevista, foi elaborado pelas autoras um roteiro de entrevista semi-estruturada, com objetivo de verificar as concepções das professoras acerca da educação inclusiva, da sua formação profissional e das políticas públicas de educação especial e inclusão, particularmente a LDB 9394/96. Para registro e transcrição das entrevistas foi usado um gravador portátil.
Para análise do padrão de interação professor-aluno foi usada a versão operacionalizada da Escala de Avaliação da Experiência de Aprendizagem Mediada (CUNHA, 2004; CUNHA; ENUMO; CANAL, 2006) e para o registro da interação foi utilizada uma filmadora, visto que esta estratégia de coleta de dados permite sua recuperação seqüencial quantas vezes forem necessárias, para efetivação da análise.
2.4 Procedimento
Após contato telefônico com a direção da instituição, foi agendada uma reunião para apresentação do projeto de pesquisa, indicação das professoras participantes e assinatura do termo de livre consentimento para realização da pesquisa. Posteriormente, em reuniões individuais com as professoras, anteriormente esclarecidas quanto aos procedimentos da pesquisa, foram realizadas as entrevistas que duraram cerca de 50 minutos, tendo sido posteriormente transcritas e analisadas de acordo com a metodologia de análise de conteúdo (BERELSON, 1954; BARDIN, 1970).
Durante o período de quatro meses foram realizadas doze visitas à instituição quando ocorreram em cada turma 6 sessões de observação, com duração de 10 minutos cada. Em cada sessão de observação, a interação entre a professora e o aluno com autismo foi filmada nos diversos locais anteriormente descritos. O registro em vídeo da interação foi transcrito no modelo de três colunas (antecedente-comportamento-consequente) para posterior análise do padrão de mediação adotado pela professora especificamente na interação com o aluno com autismo, utilizando-se a versão operacionalizada da Escala de Avaliação da Experiência de Aprendizagem Mediada (CUNHA, 2004; CUNHA; ENUMO; CANAL, 2006).
A Escala EAM propriamente dita, assim como todo referencial teórico que subsidia este instrumento, foi estudada pelas duas últimas autoras, que, por um período de 2 semanas, foram treinadas pela primeira autora para aplicação do instrumento na observação do registro em vídeo da interação professor-aluno com autismo. Tal treinamento incluiu uma discussão exaustiva da Escala EAM operacionalizada, além da aplicação do próprio instrumento em sessões de interação mãe-criança com deficiência visual.
2.5 Processamento e análise dos dados
O padrão de mediação adotado pela professora na interação com o aluno com autismo nas atividades escolares foi analisado de acordo com a Escala EAM operacionalizada nos 12 critérios de mediação citados anteriormente. Em cada sessão de observação, foi identificado o nível de mediação para cada um dos critérios de mediação e, para o total de sessões, foi identificada a mediana do nível de mediação por componente da Escala EAM.
O relato verbal das professoras foi analisado pela metodologia de análise de conteúdo e seus dados foram classificados em quatro categorias e suas subcategorias: 1) formação acadêmica; 2) atuação e prática profissional (motivos da atuação em Educação Inclusiva na instituição; obrigação institucional; identificação com o trabalho; avaliação da sua prática em Educação Inclusiva na instituição; sentimentos em relação à prática em Educação Inclusiva); 3) descrição do aluno com deficiência (aspectos afetivos; sociais; e cognitivos); 4) questões relativas à inclusão educacional (obrigatoriedade legal da inclusão; capacitação para o exercício da inclusão; estratégias de capacitação para o exercício da inclusão).
Com objetivo de garantir a fidedignidade dos resultados obtidos, foi realizado o cálculo de concordância entre observadores para 25% das sessões de interação professor-aluno com autismo, onde se encontrou índices aceitáveis que variaram entre 78% a 84% de concordância.
 
3 Resultados
3.1. Resultados da análise do padrão de mediação do professor
Ocorreram diferenças expressivas em termos da quantidade de episódios de interação ocorridos entre as professoras e a criança com autismo, já que a professora Carmem interagiu com seu aluno em 111 episódios de interação e para Marta ocorreram apenas 7 episódios interativos professor-aluno com autismo.
A análise da interação entre as professoras e os alunos com autismo foi realizada de acordo com a versão operacionalizada da Escala EAM (CUNHA, 2004; CUNHA; ENUMO; CANAL, 2006). As Figuras de 1 a 4 apresentam os níveis de mediação para os componentes da Escala que cada professora apresentou no total das sessões de observação.
Na Figura 1, observa-se que as professoras apresentaram níveis de mediação diferentes para os componentes Intencionalidade, Significação e Transcendência. Enquanto a professora Marta não apresentou com muita freqüência comportamentos mediadores relativos a esses critérios, tendo sido classificados entre nível 0 (ausência de mediação) e nível 1; a professora Carmem apresentou mediação entre nível 1 e nível 3 (nível ótimo de mediação), já que demonstrou atitudes conscientes em influenciar o comportamento do aluno, mantendo-o envolvido na atividade, mostrando a importância e valor da mesma e fazendo uso de exemplos correlacionados ao cotidiano do aluno.
A Figura 2 apresenta os níveis de mediação das professoras para os componentes Atenção Partilhada, Experiência Partilhada e Regulação na Tarefa. No que se refere à Atenção Partilhada, a professora Carmem apresentou nível 2, demonstrando atitudes de colocar-se no ponto de vista do aluno, comportamento este que pouco foi apresentado pela professora Marta que apresentou mediana 0,5 para este nível de mediação. No critério Experiência Partilhada, ambas as professoras apresentaram nível 0, já que não relataram experiências pessoais relacionadas às atividades propostas à criança. Para o critério Regulação na tarefa, a professora Carmem apresentou comportamentos que tentava facilitar a realização da tarefa pelo aluno (nível 3), o que foi pouco realizado pela outra professora, Marta, que apresentou nível 1.
A Figura 3 mostra os níveis de mediação quanto aos componentes Elogiar, Desafiar e Diferenciação Psicológica. Para o componente Elogiar, a professora Carmem apresentou nível 1 de mediação, pois ela apresentou feedback positivo sobre o comportamento do aluno, tais como: "Ah, muito bem, Luiz!". Ao contrário, a professora Marta não apresentou estes tipos de comportamento e foi classificada com nível 0. Em relação ao componente Desafiar, a professora Marta apresentou nível 0 e a professora Carmem apresentou nível 2 de mediação, porque buscava estimular a criança a alcançar além do seu nível de desenvolvimento. Em relação à Diferenciação Psicológica, ou seja, enfocar uma boa experiência de aprendizagem para a criança em detrimento do seu próprio objetivo em finalizar a tarefa, a professora Carmem apresentou comportamentos que representaram nível ótimo de mediação, enquanto a professora Marta obteve uma mediana de 0,5 no nível de mediação nesse componente.
Na Figura 4 são apresentados os componentes Responsividade Contingente, Envolvimento Afetivo e Mudança. A professora Carmem demonstrou nível 2 com comportamentos que ilustravam a sua habilidade em responder ao aluno adequadamente e manter sua atenção e interesse em relação a ele, ou seja, os componentes Responsividade Contingente e Envolvimento Afetivo, respectivamente. Contudo, ambas as professoras não apresentaram atitudes de comunicar ao aluno os seus ganhos e conquistas, ou seja, não ocorreram episódios de mediação em relação ao componente Mudança.
3.2. Resultados da análise do relato verbal do professor
Os dados da entrevista com as professoras foram analisados tomando como base as quatro categorias e suas subcategorias apresentadas anteriormente. A respeito da formação acadêmica das professoras, pode-se observar que a professora Carmem realizou curso de especialização em Arte-terapia, enquanto a professora Marta, fez pós-graduação em Educação infantil.
No que se refere à atuação e prática profissional, os relatos verbais das professoras foram diferentes tanto para os motivos que as levaram a trabalhar com educação inclusiva, como para a satisfação com esse tipo de trabalho. A professora Carmem, que se sentia feliz ("Eu me sinto muito feliz, (...) Eu acho que é o nosso papel, tanto social, como de educador"), relatou identificar-se com o trabalho com crianças com deficiência ("Eu me encantei pelas questões dos alunos especiais"), enquanto que a professora Marta, tendo declarado estar insatisfeita ("Eu ainda me sinto muito atrás do que poderia ser, né? Devido às dificuldades relativas ao número de crianças em sala de aula".), afirmou que atuava por obrigação institucional ("é uma coisa da escola, não é assim eu escolho, não").
Para a descrição do aluno, a professora Carmem adotou uma perspectiva mais positiva, apontando os seus ganhos: "Nossa criança é muito doce, não é uma criança agressiva, (...) ele se comunica muito bem, ele não usa a fala, mas ele consegue se comunicar...". Ao contrário, a professora Marta descreveu o aluno negativamente, comparando-o com outros alunos com deficiência: "Vou falar em português claro, é uma criança que dá trabalho (...) ela (referindo-se a outra aluna com deficiência para quem lecionou) participava mais, falava mais, trocava mais do que ele".
Com relação às questões relativas à inclusão educacional, no que se refere à obrigatoriedade legal da inclusão a professora Carmem relatou que não precisaria ter uma lei, mas que concorda com a medida. Já a professora Marta foi além: "Eu acho que ela é válida e eu acho que tem que ser, mas eu também acho que a escola tem que estar preparada para isso". Quanto à capacitação para o exercício da inclusão educacional ambas as professoras afirmaram ser necessária e quanto às estratégias de capacitação que as escolas deveriam adotar para promover inclusão, ambas as professoras relataram que a instituição em que trabalhavam oferecia cursos e reuniões de orientação e ambas acreditavam que isso era muito válido ("Eu acho que tem que ter um estudo teórico sim. Tem que ter o apoio da escola, das psicólogas").
 
4 Discussão
Nas últimas décadas, o discurso sobre a inclusão parece ter se expandido para os diversos domínios da sociedade. De certa forma, transformou-se em modismo e é comum falar, defender e pregar a inclusão. Com base nessa premissa, ao longo do presente estudo buscou-se refletir acerca da atuação profissional de professores de educação infantil inseridos em um contexto de educação inclusiva. Para tanto, foi analisado o padrão de mediação adotado pelo professor na interação com o aluno com autismo em uma escola que considerada inclusiva, assim como foram verificados aspectos da atuação profissional destes professores relativos à inclusão e suas concepções e envolvimento afetivo com esta questão.
Para este último aspecto, observaram-se alguns pontos importantes que merecem ser discutidos, dentre os quais destaca-se o envolvimento afetivo das professoras com a prática da inclusão. Enquanto a professora Carmem relatou que se encantava com a questão, a professora Marta demonstrava indiferença e uma postura negativa, afirmando atuar na educação inclusiva por mera obrigação institucional. Cabe esclarecer que, este dado não se sustenta no perfil das crianças com autismo presentes na turma, já que os alunos participantes apresentavam características autisticas semelhantes e, dessa forma, a severidade do autismo não representaria influência no repertório comportamental das professoras.
Um trecho do relato da professora Marta ilustra bem que seu comportamento estava mais relacionado ao seu envolvimento psicossocial com o trabalho em educação inclusiva: "é uma coisa da escola, não é assim, eu escolho, não", mostra, inclusive, indiferença em relação ao seu aluno com autismo: "(...) Quando você tem uma pessoa com uma criança que dá trabalho, vou falar português claro, é uma criança que dá trabalho, que vai exigir de você e tem uma pessoa para ele (facilitador), você meio que relaxa e vai dar conta do resto que também dá trabalho. Então assim você tem que estar se policiando o tempo todo pra não esquecer ele ali".
Tal afirmativa pode significar também que esta professora se sentia descomprometida em relação à criança com autismo devido à presença do facilitador, tendo que se "policiar" para não excluir a criança. Entretanto, como mostra a literatura, o facilitador deveria ser encarado como um profissional que assumisse o papel de auxiliar na inclusão do aluno com deficiência e não o papel de professor principal da criança. Segundo Abbamonte, Gavioli e Ranoya (2003), o facilitador deveria ser visto como mais um agente de inclusão, na medida em que ele teria circulação pela instituição, produzindo questionamentos na equipe escolar e estando sempre atento a quando e como deve fazer sua entrada em sala de aula, sem permanecer ali esquecido e excluído junto com o aluno.
Logo, o facilitador sem dúvida possibilitaria a permanência do aluno na escola. Por outro lado, sua presença constante pode evitar uma mobilização da escola e do professor em busca de outras formas de trabalhar e conseqüentemente pode inviabilizar a descoberta de possíveis estratégias educacionais que impliquem na revisão de sua prática, o que ocorreu com a professora do presente estudo. Cabe ressaltar que o facilitador pode assumir o papel de ser um apoio para que a criança possa ser incluída em um processo educacional que, de outra maneira, ou seja, sem uma pessoa diretamente a apoiando, poderia ser desestruturante e insuportável, tanto para a escola quanto para o aluno com deficiência (KUPFER, 2004).
Outra diferença marcante no relato verbal das duas professoras se refere à avaliação da prática profissional por ambas, quando uma professora (Carmem) declarou estar satisfeita e feliz com a sua atuação, cumprindo com entusiasmo o seu papel social como educadora, a outra professora (Marta) relatou estar insatisfeita e atribuiu tal sentimento às dificuldades institucionais, como por exemplo, o grande número de crianças, acreditando, no entanto, estar capacitada pessoal e profissionalmente para tal tarefa. Este dado certamente refletiu-se no padrão de mediação que ambas adotavam na interação com o aluno com autismo e, possivelmente, com outros alunos da turma, o que pôde ser observado tanto na quantidade de episódios interativos quanto nas diferenças de nível de mediação que ambas alcançaram nos diferentes critérios de Escala EAM.
No que se refere à análise do padrão de mediação do professor da criança com autismo, ainda que considerando a dificuldade de generalização dos resultados encontrados em virtude da pequena amostra investigada, a versão operacionalizada da Escala de Avaliação da Experiência de Aprendizagem Mediada (LIDZ, 1991), proposta por Cunha (2004), pode ser indicada como um instrumento adequado para avaliação da mediação de professores que trabalhem com a criança em educação infantil, sobretudo quando ela tem algum tipo de deficiência, como, por exemplo, o autismo.
Corroborando com estudos anteriores que consideraram a Escala EAM de fácil aplicação, no presente estudo o uso da Escala EAM foi possível com um curto período de estudo e treinamento por parte dos autores. E, ainda ao serem analisados os níveis de mediação obtidos pelas professoras na interação com a criança com autismo durante as observações na escola, percebeu-se que a Escala EAM é um instrumento adequado, uma vez que foi possível identificar que as professoras apresentaram padrão de mediação diferente para 10 dos 12 critérios de mediação propostos pela Escala EAM.
Tal diferença também ocorreu em relação à quantidade de episódios interativos com a criança nas diferentes situações observadas. Enquanto que para a professora Carmem ocorreram 111 episódios de interação com o seu aluno, para Marta ocorreram somente 7 episódios interativos professor-aluno. Apesar do controle metodológico no processamento dos dados, já que os comportamentos mediadores de ambas as professoras foram analisados proporcionalmente à duração da sessão, pode-se sugerir que essa diferença em termos do número de episódios interativos com o aluno influencia consequentemente na qualidade da interação das professoras, refletindo uma variação interindividual no padrão de mediação das mesmas.
Além de ter sido registrado um número muito grande de episódios interativos para a professora Carmem, pôde-se perceber claramente pela observação natural da sua atuação profissional e o seu relato verbal nas entrevistas, que ela demonstrava preocupação com a qualidade da interação com o aluno. Esse dado pode ser confirmado pelo nível ótimo de mediação que a professora alcançou para o componente Diferenciação Psicológica na Escala EAM, o que significava que ela apresentava, de forma sistemática, comportamentos mediadores demonstrando claro incentivo para a promoção de uma boa experiência de aprendizagem para a criança em detrimento do seu próprio objetivo pedagógico instrucional. O contrário ocorreu com a professora Marta que apresentou nível 0 naquele critério de mediação, o que significa que ela não privilegiava a iniciativa do aluno em detrimento de sua própria necessidade de execução de uma tarefa escolar, o que fazia com que ela, de certa forma, rejeitasse ou sequer reconhecesse os esforços do aluno em engajar-se na tarefa, sem tão pouco facilitar sua aprendizagem.
Somente para os componentes de mediação Experiência Partilhada e Mudança, o padrão de mediação das professoras foi semelhante, ou seja, nível 0 para ambas. No entanto, esse dado se justifica pelo fato de que esses componentes privilegiam a apresentação pelo mediador de associações temporais, o que, em função da faixa etária das crianças (M=3 anos), além do comprometimento decorrente da deficiência, a realização de associações muito distantes temporalmente pode não ser uma estratégia eficaz no ensino do aluno com autismo, que necessita de um planejamento do tratamento estruturado com referências concretas e atuais para facilitar sua aprendizagem (BOSA, 2006).
Comparando os níveis de mediação obtidos pelas professoras em cada componente de mediação, percebe-se que ocorreu grande variação entre o padrão de mediação de ambas, no que diz respeito ao nível obtido para cada componente da Escala EAM operacionalizada. Por exemplo, na análise do componente de mediação Intencionalidade, assim como Regulação na Tarefa e Diferenciação Psicológica, a professora Carmem apresentou nível 3 (ótimo) de mediação, enquanto que a professora Marta apresentou nível 1 de mediação em Intencionalidade e Regulação na Tarefa e nível 0,5 em Diferenciação Psicológica.
Este dado é por si só relevante visto que a Intencionalidade, juntamente com a Significação e a Transcendência, é considerada dentro da teoria da EAM, como um dos principais componentes para uma situação de aprendizagem mediada (FEUERSTEIN; FEUERSTEIN, 1991; KLEIN, 1991, 1996; TZURIEL, 1999, 2001). O componente Intencionalidade, que significa o mediador envolver a criança na interação solicitando sua atenção na execução da atividade e verbalizando claramente o propósito da interação e as instruções de como fazer a atividade, é fundamental no processo de aprendizagem mediada, uma vez que cria na criança um estado de alerta e desenvolve nela a capacidade de registrar informações de forma eficiente, processar adequadamente e apresentar uma resposta eficiente (TZURIEL, 2001).
Todos os componentes de mediação já citados são muito importantes, porque tem a função de criar um vínculo afetivo entre o professor e o aluno, assim como sustentar esse vínculo com base na atitude do professor em manter a criança envolvida e acolhida na interação com ele. Certamente, para a criança autista essa atitude pode ser considerada de extrema relevância, já que, como indica o DSM -IV, a criança autista apresenta prejuízos qualitativos na interação social e comunicativa com o outro.
Nesse sentido, a análise do padrão de mediação das professoras do estudo indica que a professora Carmem seguiu os três critérios de mediação necessários para que a interação possa ser considerada como uma experiência de aprendizagem mediada, ainda que em nível 3, para Intencionalidade, nível 2 para Significação e nível 1 para Transcendência; o que não ocorreu com a professora Marta em nenhum desses componentes, nos quais ela teve níveis de mediação muito baixos, sendo iguais ou inferiores a 1, inclusive nos principais critérios de mediação (Intencionalidade, Significação e Transcendência) ou um grande número de ausências de mediação (Md = 0) em 50% dos critérios de mediação.
Conclui-se, então, que a professora em questão não apresentava o suporte necessário para a promoção do desenvolvimento cognitivo, ou seja, favorecer a modificabilidade cognitiva estrutural da criança com autismo incluída em sua turma, visto que, de acordo com Orrú (2003), uma situação de aprendizagem com base na teoria da EAM a ser proposta para o aluno com autismo, deveria priorizar a adequação dos diversos aspectos envolvidos nesta situação às necessidades de transformação das estruturas cognitivas da criança autista.
De acordo com os dados coletados e analisados a partir das observações e das entrevistas, mais uma vez reafirma-se a importância da atuação do professor e o preparo dele como mediador e agente de inclusão, assim como o papel da escola como o espaço propício para isso. Neste ponto, concorda-se com Ferreira e Guimarães (2003) que dizem ser necessário deixar de pensar a educação sob uma perspectiva simplista e reducionista, passando a compreendê-la sob uma ótica em que o acesso e a permanência na escola ocorram dentro de condições viáveis e satisfatórias para a educação e formação de todo e qualquer aluno, constituindo-se então em um direito espontâneo e natural, uma responsabilidade da sociedade, do Estado e de todo cidadão.
Com efeito, em uma perspectiva filosófica e ideológica, a inclusão é a crença de que todos têm direito de participar ativamente da sociedade, contribuindo de alguma forma para o seu desenvolvimento, além de ser uma estratégia que aparece para quebrar barreiras cristalizadas em torno de grupos estigmatizados (WERNECK, 2000). Com o presente estudo observou-se que a instituição pesquisada, que afirma adotar uma prática inclusiva, não conseguia realizar uma inclusão de fato, visto que necessitava lançar mão de um apoio extra-equipe escolar, o facilitador, e tem professores, como Marta, que apresentam um relato e uma prática claramente descompromissada com o paradigma da inclusão.
Por fim, cabe concluir que a construção de uma educação verdadeiramente inclusiva pode ser caracterizada como uma grande utopia por parte dos educadores, das pessoas com deficiência e dos seus familiares, que devem estar todos comprometidos com uma educação de qualidade. No entanto, faz-se necessário que se produzam propostas com efeitos reais no processo de inclusão, que alcancem de forma pragmática o fazer pedagógico com vistas à inclusão. Dessa forma, é possível que mesmo estas propostas utópicas tenham grande potencial de gerar futuras práticas, no sentido de ajudar efetivamente o processo de transformação das instituições educacionais. Afinal, é para isto que servem as utopias: para fazer caminhar...
 
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1"(...) a distância entre o nível de desenvolvimento atual determinado pela solução de problema individual e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problema com a orientação ou colaboração de parceiros mais capazes. (...)" (VYGOTSKY, 1993/ 1962, p.97).
2Para maiores detalhes pesquisar em Cunha; Enumo; Canal (2006).
3Nome dado pelas autoras, visando preservar a identidade das professoras.
4Nome dado pelas autoras, visando preservar a identidade das professoras.
5O facilitador é um dispositivo que tem sido cada vez mais utilizado nas escolas, principalmente na rede particular de ensino. Sua função é propiciar a inclusão de crianças que possuem algum comprometimento no desenvolvimento (ABBAMONTE; GAVIOLI; RANOYA 2003). A presença do facilitador deve possibilitar o reconhecimento das conquistas e resultados do aluno com deficiência, além de funcionar como um interlocutor, mediando o ideal do professor e a realidade que esse aluno apresenta no cotidiano escolar. Ressalta-se que a presença do facilitador na pesquisa foi inesperada, não tendo sido considerada como fator determinante na seleção da amostra.
 
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