História do Autismo

História do Autismo

A primeira descrição dessa síndrome foi apresentada por Leo Kanner, em 1943, com base em onze casos de crianças que ele acompanhava e que possuíam algumas características em comum: incapacidade de se relacionarem com outras pessoas; severos distúrbios de linguagem (sendo esta pouco comunicativa) e uma preocupação obsessiva pelo que é imutável (BOSA e CALLIAS). Esse conjunto de características foi denominado por ele de autismo infantil precoce (Kanner, 1943).

O diagnóstico e subclassificações do Autismo estiveram sob o rótulo de ‘esquizofrenia infantil’ por muitas décadas. Entretanto, segundo Rutter (1985), já havia nos anos 70, um reconhecimento de que seria necessário distinguir-se entre as desordens mentais surgidas na infância, e as psicoses cujo aparecimento se faz mais tarde. Considerando que uma séria anormalidade no processo de desenvolvimento está presente desde cedo na criança, o termo ‘transtornos invasivos do desenvolvimento’ tem sido adotado, desde a década de 80. O estudo do autismo, desde as primeiras considerações feitas por Kanner (1943) até as mais recentes reformulações em termos de classificação e compreensão dessa síndrome (Rutter, 1996), tem sido permeado por controvérsias quanto a sua etiologia. Historicamente, reivindicações a respeito da natureza do déficit considerado ‘primário’ (inato x ambiental) têm constituído os principais postulados das teorias psicológicas sobre o autismo. Têm sido propostas teorias psicanalíticas, afetivas, sócio-cognitivas, neuropsicológicas e de processamento da informação.

Teoria da Mente

Teoria da mente significa a capacidade para atribuir estados mentais a outras pessoas e predizer o comportamento das mesmas em função destas atribuições (Premack & Woodruff, 1978). (…) Tem sido sugerido por alguns teóricos (Harris, 1994; Wellman, 1994) que uma teoria da mente operante se refletiria na capacidade da criança em atribuir a si própria ou a outrem, estados mentais como desejos, crenças e intenções – habilidade já presente ao redor dos três anos de idade. Nessa época, a criança estaria apta a distinguir estados mentais de físicos, bem como aparência (e ‘faz-de-conta’) de realidade.” BOSA e CALLIAS
Um atraso ou desvio no desenvolvimento dessa capacidade tem sido demonstrado em estudos com crianças autistas, podendo ser uma das causas para o déficit no comportamento social como um todo e na linguagem/comunicação (Baron-Cohen, 1991 apud Bosa e Callias).

Teorias Afetivas

“A teoria afetiva sugere que o Autismo se origina de uma (…) inabilidade inata básica para interagir emocionalmente com os outros, o que levaria a uma falha no reconhecimento de estados mentais e a um prejuízo na habilidade para abstrair e simbolizar. Os déficits no reconhecimento da emoção e na habilidade de utilizar a linguagem de acordo com o contexto social, seriam então, conseqüências da disfunção afetiva básica, a qual impediria a criança de viver a experiência social intersubjetiva. Tal experiência está associada à capacidade (inata) de perceber e responder à linguagem corporal (por exemplo, expressão facial, vocal e gestual) e de inferir emoções a partir dessa linguagem. Em outras palavras, os bebês viriam ao mundo naturalmente equipados com a capacidade (…) para estabelecer relações afetivas recíprocas, habilidade essa que o capacita a distinguir pessoas de ‘coisas’ e de compreender os estados mentais do self e dos outros”.

BOSA e CALLIAS
As crianças com autismo apresentam um déficit na capacidade de reconhecimento de diferentes emoções (Hobson, 1986 apud Bosa e Callias).

Outra teoria afetiva (Mundy & Sigman, 1989) enfatiza o papel do sistema afetivo, tanto quanto o cognitivo, no desenvolvimento social infantil, chamando a atenção para o comportamento de ‘atenção compartilhada’ (isto é, a capacidade de dividir uma experiência com objetos/eventos com um parceiro).

“(…) o ‘retraimento’ autista tem sido explicado em termos de um estado de excitação crônico (Hutt & Hutt, 1968) ou flutuações nesses estados (Ornitz & Ritvo, 1976) que conduzem à evitação do olhar, reações negativas e retraimento da interação social, como mecanismos para controlar o excesso de estimulação.”

BOSA e CALLIAS

Teorias Neuropsicológias

“Hermelin e O’Connor (1970) (…) concluíram que essas crianças mostravam deficits cognitivos específicos, tais como: problemas na percepção de ordem e significado, os quais não poderiam ser explicados por deficiência mental; dificuldades em usar input sensorial interno para fazer discriminações na ausência de feedback de respostas motoras; e tendência a armazenar a informação visual, utilizando um código visual, enquanto as crianças com desenvolvimento normal usavam códigos verbais e/ou auditivos. Particularmente surpreendentes foram as respostas dessas crianças aos estímulos auditivos – a intensa resposta fisiológica a sons contrastava com a passividade geralmente demonstrada por essas crianças em situações envolvendo tais estímulos.

Resultados semelhantes foram descritos em outros estudos e teorias (…) apesar de adotarem diferentes terminologias e interpretações, descreveram o mesmo fenômeno: a resposta atípica de crianças autistas a estímulos sociais e não-sociais. Alguns exemplos desses conceitos são: hiperseletividade sensorial (Schreibman & Lovaas, 1974); otimização da estimulação sensorial (Hutt & Hutt, 1968; Zentall & Zentall, 1983); input sensorial e modulação da atenção (Ornitz & Ritvo, 1976)”.

BOSA E CALLIAS
A chamada função executiva é uma habilidade cognitiva que envolve flexibilidade de comportamento, integração de detalhes isolados num todo coerente e o manejo de múltiplas fontes de informação, coordenados com o uso de conhecimento adquirido (Kelly, Borrill & Maddell, 1996 apud Bosa e Callias); está ligada ao funcionamento dos lobos cerebrais frontais (Duncan, 1986 apud Bosa e Callias), e parece estar comprometida no autismo, gerando os comportamentos de: inflexibilidade, perseveração, primazia do detalhe e dificuldade de inibição de respostas. Um teste psicológico capaz de medir a função executiva é o Wisconsin Card Sorting Test (Heaton, 1981 apud Bosa e Callias), disponível no Brasil, porém seus resultados não são capazes de diferenciar patologias específicas, ou seja, é incapaz de realizar diagnósticos específicos quando usado isoladamente.
“Diferenças no sistema de processamento da informação em crianças com autismo é também a base de outra recente teoria em autismo (Frith, 1989). A falta da tendência natural em juntar partes de informações para formar um ‘todo’ provido de significado (coerência central) é uma das características mais marcantes no autismo. O interessante dessa teoria é que busca explicar não somente os déficits, mas também as habilidades as quais podem estar não somente preservadas, mas inclusive mostrarem-se superiores em indivíduos com autismo”. (…) “As teorias de processamento da informação têm um papel fundamental em termos de intervenção, uma vez que o conhecimento a respeito das formas particulares com que crianças com autismo apreendem o mundo circundante tem revertido em estratégias de ação, por exemplo, na prática psicopedagógica com essas crianças”. BOSA E CALLIAS